Vencendo por Um Pescoço – As Girafas e o Mundo Real

Uma girafa pastando no Parque Nacional de Serengeti, Tanzânia.

Em março do ano passado a postagem de uma charge na página Inteligentista gerou polêmica pelo teor lamarckista. Alguns comentários e reações sobre a deturpação do cenário científico foram feitos e por isso escrevi a resposta a seguir (adaptada).


A charge não era sobre darwinismo e nem sobre a discussão científica. Era brincadeira com alusão ao processo evolutivo, independente do darwinismo. A nossa perspectiva é que as tentativas de explicar o processo com darwinismo são tão nulas quanto o lamarckismo citado. No teor científico, com relação a evolução, o problema do design do pescoço das girafas é algo que permanece.

A ideia darwiniana original é de que uma competição durante estações secas, provavelmente por folhagens em copas de árvores, levou ao favorecimento de pescoços cada vez maiores. A observação direta constatou que não havia e nem poderia acontecer tal cenário, porque as girafas não disputavam as folhagens mais altas e, ao contrário, chegavam até a pastar como as zebras e outros animais herbívoros das planícies. A ideia darwiniana era totalmente alienada do cenário natural.

Ainda assim, conhecendo a falsidade da proposta, essa hipótese foi aceita implicitamente (e apresentada continuamente) até que outra fosse sugerida, o que ocorreu na década de 90: o design por seleção sexual [1]. O título era “Vencendo por um pescoço: seleção sexual e a evolução das girafas. Os machos, disputando fêmeas, usam o pescoço em lutas e os com maior pescoço acabariam prevalecendo. Em gerações o efeito cumulativo levaria aos longos pescoços em machos. Problema resolvido?

Por sorte há um ponto de falseabilidade: a expectativa de dimorfismo sexual, isso é, diferença entre sexos. Quando um dos sexos “evolui” alguma característica à parte do outro, é de se esperar algum dimorfismo sexual. Neste caso as fêmeas não deveriam apresentar pescoço tão longo quanto os machos. Ainda assim a hipótese foi sustentada por mais de uma década.

Até que um artigo publicado em 2009 apresentou os resultados da dissecação de mais de 200 girafas e o resultado é expresso no próprio título [2]: “Seleção sexual não é (responsável pela) origem dos pescoços longos em girafas”. Isso porque não encontraram qualquer diferença substancial entre machos e fêmeas.

Agora nossos adversários de ideias podem nos amar já que explicamos o desenho e desenhamos a explicação? É claro que eles não vão, existe algo mais forte aí.

Se você procurar em qualquer lugar, ainda encontrará aquela versão inicial (geralmente em disputa com a versão de Lamarck) sendo exposta como uma façanha explicativa. Também espere que isso ainda seja ensinado nas escolas, a teoria nos livros didáticos estará sempre em algum lugar no passado teórico, segura e alienada da vida real.

Post original: Inteligentista (link).

[1] Robert E. Simmons and Lue Scheepers. Winning by a Neck: Sexual Selection in the Evolution of Giraffe.
The American Naturalist. Vol. 148, No. 5 (Nov., 1996), pp. 771-786

[2] G. Mitchell, S. J. Van Sittert and J. D. Skinner. Sexual selection is not the origin of long necks in giraffes.
Journal of Zoology. Volume 278, Issue 4, pages 281–286, August 2009.

Imagem: A giraffe grazes in Serengeti National Park, Tanzania.
PHOTOGRAPH BY PATRICK J. ENDRES, ALASKAPHOTOGRAPHICS/CORBIS


Júnior Eskelsen
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Responsável pelo portal tdibrasil.org e pela página Teoria do Design Inteligente no Facebook. Colabora com as atividades do movimento do Design Inteligente no Brasil.

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