{"id":5379,"date":"2026-06-17T11:53:51","date_gmt":"2026-06-17T14:53:51","guid":{"rendered":"http:\/\/tdibrasil.org\/?p=5379"},"modified":"2026-06-17T11:53:51","modified_gmt":"2026-06-17T14:53:51","slug":"conservacao-da-informacao-de-um-modo-simples","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tdibrasil.org\/index.php\/2026\/06\/17\/conservacao-da-informacao-de-um-modo-simples\/","title":{"rendered":"Conserva\u00e7\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o de Um Modo Simples"},"content":{"rendered":"<p><em>Um texto longo, mas fundamental para entender o Design Inteligente. Leitura em aproximadamente 1 h.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Por <strong>William A. Dembski<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 1970, a Doubleday publicou uma s\u00e9rie de livros sob o t\u00edtulo <em>\u201cMade Simple\u201d<\/em>. A s\u00e9rie cobria os mais variados temas acad\u00eamicos (<em>Statistics Made Simple<\/em>, <em>Philosophy Made Simple<\/em> etc.). Os anos 1980 viram surgir a s\u00e9rie <em>\u201cFor Dummies\u201d<\/em>, que ampliou o leque para quest\u00f5es pr\u00e1ticas, como consertar o pr\u00f3prio carro. A s\u00e9rie <em>\u201cFor Dummies\u201d<\/em> j\u00e1 foi imitada, sobretudo pelos guias <em>\u201cComplete Idiot\u2019s\u201d<\/em>. Todos esses livros tentam, com graus variados de sucesso, destrinchar assuntos complexos, ajudando o estudante a aprender um t\u00f3pico \u2014 em especial quando ele j\u00e1 se frustrou com abordagens e manuais mais convencionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste artigo, seguirei o exemplo desses livros, expondo do modo mais simples e claro poss\u00edvel <strong>o que \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e por que ela representa um desafio ao pensamento evolucionista convencional<\/strong>. Vou destrinchar o conceito at\u00e9 que pare\u00e7a natural e direto. Hoje \u00e9 muito f\u00e1cil para os cr\u00edticos do Design Inteligente dizerem: \u201cAh, essa tal conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ilus\u00e3o. Faz parte da agenda do DI fazer um p\u00fablico cr\u00e9dulo pensar que existe algum design inteligente cient\u00edfico, quando na verdade \u00e9 tudo fuma\u00e7a e espelhos.\u201d A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um conceito dif\u00edcil e, uma vez entendido, fica claro que os processos evolutivos n\u00e3o podem criar a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para impulsionar a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Conserva\u00e7\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o: Uma Breve Hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cConserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 um termo de hist\u00f3ria curta. O bi\u00f3logo Peter Medawar usou-o na d\u00e9cada de 1980 para se referir a sistemas matem\u00e1ticos e computacionais que se limitam a extrair consequ\u00eancias l\u00f3gicas de um dado conjunto de axiomas ou pontos de partida e que, portanto, n\u00e3o podem criar informa\u00e7\u00e3o nova (tudo o que est\u00e1 nas consequ\u00eancias j\u00e1 est\u00e1 impl\u00edcito nos pontos de partida). Esse \u00e9 o primeiro uso do termo de que tenho not\u00edcia, embora a ideia que ele captou seja muito mais antiga. Note-se que ele a chamou de \u201cLei da Conserva\u00e7\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o\u201d (ver <em>The Limits of Science<\/em>, 1984).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cientista da computa\u00e7\u00e3o Tom English, <a href=\"http:\/\/boundedtheoretics.com\/EP96.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">em um artigo de 1996<\/a>, tamb\u00e9m usou o termo \u201cconserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o\u201d, embora como sin\u00f4nimo dos resultados ent\u00e3o rec\u00e9m-provados por Wolpert e Macready sobre o <em>No Free Lunch (NFL)<\/em>. Na formula\u00e7\u00e3o de English para o NFL, \u201ca informa\u00e7\u00e3o que um otimizador obt\u00e9m sobre valores n\u00e3o observados se deve, em \u00faltima an\u00e1lise, a <strong>informa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via<\/strong> sobre as distribui\u00e7\u00f5es de valor\u201d. Tal como na forma de conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o de Medawar, a informa\u00e7\u00e3o, para English, n\u00e3o \u00e9 criada do zero, e sim redistribu\u00edda a partir de fontes existentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na medida em que a ideia vem sendo desenvolvida e ganhando circula\u00e7\u00e3o na comunidade do Design Inteligente, a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o \u00e9, sobretudo, obra de Bob Marks e minha, junto a v\u00e1rios alunos de Bob em Baylor (veja a p\u00e1gina de publica\u00e7\u00f5es em <a href=\"http:\/\/www.evoinfo.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.evoinfo.org<\/a>). A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, tal como usamos o termo, aplica-se \u00e0 <strong>\u201cbusca\u201d<\/strong> (pesquisa)\u00b9. Ora, \u201cbusca\u201d pode parecer um t\u00f3pico bastante restrito. Ao contr\u00e1rio da conserva\u00e7\u00e3o de energia, que vale para todas as escalas e dimens\u00f5es do universo, a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, por concentrar-se na busca, pode parecer ter significado f\u00edsico apenas limitado. Mas, na verdade, ela est\u00e1 profundamente enraizada no tecido da natureza, e o termo n\u00e3o distorce a pr\u00f3pria import\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; font-size: 12px;\"><strong>Nota do tradutor\u00b9:<\/strong> O termo que ele usa \u00e9 <strong>&#8220;search&#8221;<\/strong> e isso pode ser traduzido como <strong>&#8220;procura&#8221;<\/strong>, <strong>&#8220;pesquisa&#8221;<\/strong> e <strong>&#8220;busca&#8221;<\/strong> em portugu\u00eas, e infelizmente o termo em ingl\u00eas tem m\u00faltiplas acep\u00e7\u00f5es que v\u00e3o recair nos tr\u00eas termos mencionados, ent\u00e3o eles ser\u00e3o intercambi\u00e1veis durante o restante do texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <strong>busca<\/strong> \u00e9 um fen\u00f4meno muito geral. A raz\u00e3o pela qual em geral n\u00e3o a pensamos em termos amplos, aplic\u00e1veis \u00e0 natureza, \u00e9 que tendemos a conceb\u00ea-la de modo restrito: encontrar um objeto particular, previamente definido. Assim, nosso exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 o de perder as chaves, sendo a <strong>busca<\/strong> a tentativa de recuper\u00e1-las. Mas tamb\u00e9m podemos <strong>procurar<\/strong> coisas que n\u00e3o s\u00e3o dadas de antem\u00e3o dessa maneira. Os exploradores do s\u00e9culo XVI <strong>procuravam<\/strong> terras novas e desconhecidas. Sabiam, quando descobriam, que sua <strong>busca<\/strong> havia sido bem-sucedida \u2014 mas n\u00e3o sabiam exatamente o que procuravam. O U2 tem uma can\u00e7\u00e3o intitulada \u201cI Still Haven\u2019t Found What I\u2019m Looking For\u201d (\u201cAinda n\u00e3o encontrei o que procuro\u201d). Como saber\u00e1 Bono quando encontrar o que procura? Muitas vezes sabemos que encontramos algo mesmo quando ele n\u00e3o se parece em nada com o que esper\u00e1vamos e, \u00e0s vezes, viola nossas expectativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro obst\u00e1culo a estender a busca \u00e0 natureza em geral \u00e9 que tendemos a conceb\u00ea-la como confinada a contextos humanos. Os humanos procuram chaves e procuram terras desconhecidas. Mas, como se constata, a natureza tamb\u00e9m \u00e9 capaz de buscar. Fa\u00e7a uma busca no Google pelo termo \u201cbusca evolucion\u00e1ria\u201d (<em>evolutionary search<\/em>) e voc\u00ea obter\u00e1 v\u00e1rios resultados. A evolu\u00e7\u00e3o, segundo alguns bi\u00f3logos te\u00f3ricos como Stuart Kauffman, pode legitimamente ser concebida como uma busca (veja seu livro <em>Investigations<\/em>). Kauffman n\u00e3o \u00e9 um proponente do Design, de modo que, para ele, n\u00e3o h\u00e1 intelig\u00eancia alguma \u2014 humana ou de outra natureza \u2014 por tr\u00e1s da busca evolucion\u00e1ria. Ainda assim, para Kauffman, a natureza, ao potencializar o processo evolutivo, empreende uma busca pelo espa\u00e7o de configura\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, buscando e encontrando ordens cada vez maiores de complexidade e diversidade biol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Uma Era da Pesquisa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A busca evolutiva n\u00e3o se restringe \u00e0 biologia: tamb\u00e9m ocorre dentro dos computadores. O campo da computa\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria (que inclui os algoritmos gen\u00e9ticos) insere-se, em larga medida, na \u00e1rea da matem\u00e1tica conhecida como <strong>Pesquisa Operacional<\/strong>, cujo foco principal \u00e9 a otimiza\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica. Otimizar, matematicamente, \u00e9 encontrar solu\u00e7\u00f5es para problemas cujas solu\u00e7\u00f5es admitem graus variados e mensur\u00e1veis de <strong>qualidade<\/strong>\u00b2 (otimalidade). A computa\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria se encaixa nesse molde: busca, num espa\u00e7o de busca, itens que atinjam certo n\u00edvel de aptid\u00e3o \u2014 as solu\u00e7\u00f5es \u00f3timas. (A prop\u00f3sito, n\u00e3o me escapou a ironia de fazer uma \u201cbusca\u201d no Google pela express\u00e3o-alvo \u201cbusca evolucion\u00e1ria\u201d, como descrevi no par\u00e1grafo anterior: todo o neg\u00f3cio do Google assenta-se em realizar buscas otimizadas, em que a otimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 avaliada pela estrutura de links da web. Vivemos numa era de buscas.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; font-size: 12px;\"><strong>Nota do tradutor\u00b2:<\/strong> O termo em <strong>qualidade<\/strong> \u00e9 &#8220;goodness&#8221;, que n\u00e3o encontra uma tradu\u00e7\u00e3o adequada para o contexto, mas a &#8220;otimalidade&#8221; na sequ\u00eancia indica que se trata dos estados otimizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se as possibilidades ligadas \u00e0 busca agora lhe parecem maiores do que antes \u2014 estendendo-se para al\u00e9m dos humanos, at\u00e9 os computadores e a biologia em geral \u2014, elas ainda podem parecer limitadas, pois a f\u00edsica aparenta nada saber sobre busca. Mas ser\u00e1 mesmo? O mundo f\u00edsico permite a vida: sua estrutura e suas leis possibilitam (embora longe de <em>exigir<\/em>) a exist\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 da vida celular, mas tamb\u00e9m da vida multicelular inteligente. Para que o mundo f\u00edsico permita a vida desse modo, suas leis e constantes fundamentais precisam estar ajustadas de maneiras muito precisas. Al\u00e9m disso, parece longe de obrigat\u00f3rio que essas leis e constantes tivessem de assumir exatamente a forma que t\u00eam. O pr\u00f3prio universo, portanto, pode ser visto como a solu\u00e7\u00e3o para o problema de tornar a vida poss\u00edvel. E resolver um problema \u00e9, em si, uma forma de busca \u2014 encontrar a solu\u00e7\u00e3o (entre uma variedade de possibilidades) para o problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, para muitos cientistas, a busca acomoda-se com desconforto nas ci\u00eancias naturais. Algo inevitavelmente subjetivo e teleol\u00f3gico parece estar em jogo. Toda busca envolve uma meta ou objetivo, bem como crit\u00e9rios de sucesso e fracasso (julgados por quem, ou pelo qu\u00ea?), conforme o objetivo tenha sido alcan\u00e7ado, e em que grau. De onde vem esse objetivo \u2014 em geral chamado de <em>alvo<\/em> \u2014 sen\u00e3o da mente dos investigadores humanos? Ser\u00e1 que n\u00f3s, animais que buscam padr\u00f5es e criam padr\u00f5es, estamos simplesmente impondo esses objetivos\/padr\u00f5es \u00e0 natureza, ainda que eles n\u00e3o tenham estatuto objetivo e independente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa preocupa\u00e7\u00e3o tem m\u00e9rito, mas n\u00e3o deve ser exagerada. Se n\u00e3o pressupomos de sa\u00edda uma metaf\u00edsica materialista \u2014 que faz da mente, da intelig\u00eancia e da ag\u00eancia meras propriedades emergentes da mat\u00e9ria adequadamente organizada \u2014, ent\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto se a busca, e a teleologia que lhe \u00e9 inerente, s\u00e3o meras constru\u00e7\u00f5es humanas, de um lado, ou antes realidades incorporadas \u00e0 natureza, de outro. E se a pr\u00f3pria natureza for produto de uma mente, e os padr\u00f5es que ela exibe refletirem solu\u00e7\u00f5es buscadas para problemas formulados por essa mente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, livre de preconceitos e de pressuposi\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas estreitas, deveria \u2014 ao que parece \u2014 deixar ambas as possibilidades em aberto. Afinal, os padr\u00f5es de que falamos n\u00e3o s\u00e3o como vislumbrar uma vaga semelhan\u00e7a entre a barba do Papai Noel e uma forma\u00e7\u00e3o de nuvens. Quem, olhando com vontade suficiente, n\u00e3o enxerga a barba do Papai Noel? O ajuste fino das leis e constantes da natureza, que permite a exist\u00eancia da vida, n\u00e3o \u00e9 assim. \u00c9 um padr\u00e3o not\u00e1vel, e pode legitimamente ser tomado como a solu\u00e7\u00e3o de um problema de busca \u2014 uma caracter\u00edstica fundamental da natureza, ou o que os fil\u00f3sofos chamariam de um <em>tipo natural<\/em> (natural kind), e n\u00e3o mera constru\u00e7\u00e3o humana. Se uma intelig\u00eancia \u00e9 respons\u00e1vel pelo sucesso dessa busca, isso \u00e9 outra quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todo modo, \u00e9 poss\u00edvel caracterizar a busca de maneira a deixar em aberto o papel da <em>teleologia<\/em> e da intelig\u00eancia, sem pressup\u00f4-lo nem decidi-lo de antem\u00e3o. Matematicamente, a busca sempre se d\u00e1 num cen\u00e1rio de possibilidades (o <em>espa\u00e7o de busca<\/em>), sendo a busca por um subconjunto dentro desse cen\u00e1rio (conhecido como <em>alvo<\/em>). O sucesso e o fracasso da busca s\u00e3o ent\u00e3o caracterizados em termos de uma distribui\u00e7\u00e3o de probabilidade sobre esse cen\u00e1rio: a probabilidade de sucesso aumenta \u00e0 medida que aumenta a probabilidade de localizar o alvo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, considere todas as sequ\u00eancias poss\u00edveis de L-amino\u00e1cidos unidos por liga\u00e7\u00f5es pept\u00eddicas, de comprimento 100. Tomemos isso como nossa classe de refer\u00eancia, ou pano de fundo de possibilidades \u2014 nosso espa\u00e7o de busca. Dentro dessa classe, considere as sequ\u00eancias que se dobram e podem, portanto, formar uma prote\u00edna funcional. Este, digamos, \u00e9 o alvo. E ele n\u00e3o \u00e9 mera constru\u00e7\u00e3o humana: a pr\u00f3pria natureza identificou esse alvo como pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o da vida \u2014 nenhum ser vivo que conhecemos pode existir sem prote\u00ednas. Al\u00e9m disso, esse alvo admite algumas estimativas probabil\u00edsticas. A partir do trabalho de Robert Sauer, a mutag\u00eanese por cassete e outros experimentos do g\u00eanero, realizados nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, sugerem que o alvo tem probabilidade n\u00e3o maior que 1 em 10\u2076\u2070 (supondo uma distribui\u00e7\u00e3o de probabilidade uniforme sobre todas as sequ\u00eancias de amino\u00e1cidos da classe de refer\u00eancia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A matem\u00e1tica que caracteriza a busca dessa maneira \u00e9 direta e geral. <strong>Se<\/strong>, em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, uma busca assim caracterizada tamb\u00e9m envolve inevitavelmente elementos humanos subjetivos, <strong>ou se<\/strong>, ao contr\u00e1rio, reflete objetivamente realidades dadas, incorporadas \u00e0 natureza \u2014 isso pode ser discutido independentemente da matem\u00e1tica. Tal discuss\u00e3o diz respeito \u00e0 <em>interpreta\u00e7\u00e3o<\/em> da busca, n\u00e3o \u00e0 busca em si. \u00c9 um paralelo \u00e0s controv\u00e9rsias em torno da interpreta\u00e7\u00e3o da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica: se ela \u00e9 inerentemente uma teoria baseada na mente e dependente do observador; se pode ser desenvolvida independentemente de observadores; se \u00e9 melhor interpretada como reflexo de um multiverso determinista e independente da mente; e assim por diante. A mec\u00e2nica qu\u00e2ntica em si \u00e9 uma teoria \u00fanica e bem definida, que admite v\u00e1rias formula\u00e7\u00f5es, todas matematicamente equivalentes.<\/p>\n<p><b>Uma Ca\u00e7a aos Ovos de P\u00e1scoa, do Ponto de Vista Cient\u00edfico<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale a pena inserir aqui um esclarecimento, enquanto ainda preparamos o terreno para a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Para a maioria das pessoas, quando se trata de busca, o que importa \u00e9 o resultado da busca. Tome uma ca\u00e7a aos ovos de P\u00e1scoa: o que preocupa as crian\u00e7as que procuram os ovos \u00e9 a chance de encontr\u00e1-los. Do ponto de vista cient\u00edfico, por\u00e9m, o que importa numa busca n\u00e3o s\u00e3o os resultados particulares, mas a distribui\u00e7\u00e3o de probabilidade sobre toda a gama de resultados poss\u00edveis no espa\u00e7o de busca (em paralelo \u00e0 teoria da comunica\u00e7\u00e3o, na qual o que importa n\u00e3o s\u00e3o as mensagens espec\u00edficas enviadas pelo canal, mas a gama de mensagens poss\u00edveis e sua distribui\u00e7\u00e3o de probabilidade). O problema de olhar apenas para os resultados \u00e9 que uma busca pode ter sorte e encontrar o alvo mesmo quando as probabilidades est\u00e3o contra ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tome uma ca\u00e7a aos ovos de P\u00e1scoa em que haja apenas um ovo, cuidadosamente escondido em algum ponto de uma vasta \u00e1rea. Esse \u00e9 o alvo, e \u00e9 altamente improv\u00e1vel que a busca cega o encontre \u2014 justamente porque o espa\u00e7o de busca \u00e9 muito grande. Ainda assim, h\u00e1 uma probabilidade positiva de encontrar o ovo mesmo com a busca cega; e, se o ovo for descoberto, ent\u00e3o que seja. Pode ser que, por ser t\u00e3o improv\u00e1vel a descoberta do ovo, passemos a questionar se a busca foi realmente cega e, portanto, rejeitemos essa hip\u00f3tese (nula). Talvez tenha sido uma busca guiada, em que algu\u00e9m, conhecendo o paradeiro do ovo, dizia a quem procurava: \u201cquente\u2026 mais quente\u2026 n\u00e3o, mais frio\u2026 mais quente, mais quente, mais quente\u2026\u201d \u2014 informa\u00e7\u00e3o que, sendo precisa, ajudava a localizar o ovo com probabilidade muito maior que a mera busca cega. Essa informa\u00e7\u00e3o adicionada altera a distribui\u00e7\u00e3o de probabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, novamente, a quest\u00e3o importante, de uma perspectiva cient\u00edfica, n\u00e3o \u00e9 como a busca terminou, e sim a distribui\u00e7\u00e3o de probabilidade sob a qual ela foi conduzida. N\u00e3o \u00e9 preciso ser cientista para apreciar este ponto. Suponha que voc\u00ea tenha uma condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica s\u00e9ria, que exija tratamento. Digamos que haja duas op\u00e7\u00f5es. Qual voc\u00ea escolhe? Deixando de lado custo e desconforto, voc\u00ea vai querer o tratamento com maior chance de sucesso \u2014 o mais eficaz. Ora, em certas circunst\u00e2ncias pode acontecer de o tratamento menos eficaz levar a um bom resultado, e o mais eficaz, a um resultado ruim. Mas isso \u00e9 a posteriori. Na hora de decidir, voc\u00ea agir\u00e1 como um bom cientista e escolher\u00e1 o que tem maior probabilidade de sucesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exemplo da ca\u00e7a aos ovos de P\u00e1scoa oferece uma pequena pr\u00e9via da conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 altamente improv\u00e1vel que uma busca cega localize os ovos com sucesso, se o espa\u00e7o de busca for muito grande e o n\u00famero de ovos muito pequeno. J\u00e1 uma busca guiada \u2014 em que quem procura recebe um retorno (feedback) sobre sua busca, sendo avisado quando est\u00e1 mais perto ou mais longe do ovo \u2014 promete aumentar drasticamente a probabilidade de sucesso. Quem procura recebe informa\u00e7\u00e3o vital para o \u00eaxito da busca. Mas de onde veio essa informa\u00e7\u00e3o que mede a proximidade entre quem procura e o ovo? A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o sustenta que essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9, em si mesma, t\u00e3o dif\u00edcil de encontrar quanto localizar o ovo por busca cega \u2014 o que implica que a busca guiada, uma vez levada em conta essa informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 melhor para achar os ovos do que a busca cega.<br \/>\n<strong>Conserva\u00e7\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o na Biologia Evolutiva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daqui em diante, vou me concentrar sobretudo na conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o tal como se aplica \u00e0 busca em biologia evolutiva (e, por extens\u00e3o, na computa\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria), na convic\u00e7\u00e3o de que, uma vez estabelecido o argumento na biologia, seu alcance e aplicabilidade ao restante das ci\u00eancias naturais ser\u00e3o aceitos com muito mais facilidade. Ali\u00e1s, os pr\u00f3prios bi\u00f3logos evolucionistas, que disp\u00f5em das ferramentas matem\u00e1ticas para entender a busca, de bom grado caracterizam a evolu\u00e7\u00e3o como uma forma de busca. E mesmo os que t\u00eam conhecimento m\u00ednimo da matem\u00e1tica relevante se enquadram nesse modo de pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considere Kenneth Miller, da Brown University, bi\u00f3logo celular cujo dom\u00ednio da matem\u00e1tica relevante eu desconhe\u00e7o. Em sua tentativa de refutar o DI, Miller descreve com frequ\u00eancia experimentos nos quais alguma estrutura biol\u00f3gica \u00e9 eliminada junto com sua fun\u00e7\u00e3o e, ent\u00e3o, sob press\u00e3o de sele\u00e7\u00e3o, desenvolve-se uma estrutura substituta que recupera a fun\u00e7\u00e3o. O que torna esses experimentos significativos para Miller \u00e9 serem prontamente replic\u00e1veis: os mesmos sistemas, com as mesmas perdas, sofrer\u00e3o a mesma recupera\u00e7\u00e3o sob o mesmo regime de sele\u00e7\u00e3o apropriado. Em nossa caracteriza\u00e7\u00e3o da busca, dir\u00edamos que a busca por estruturas que recuperem a fun\u00e7\u00e3o, nesses experimentos de elimina\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7a o sucesso com alta probabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para sermos um pouco mais concretos, imaginemos uma bact\u00e9ria capaz de produzir certa enzima que lhe permite viver de determinada fonte de alimento. Em seguida, desabilitamos essa enzima \u2014 n\u00e3o a removendo por completo, mas alterando, por exemplo, uma base de DNA na regi\u00e3o codificadora dessa prote\u00edna, mudando assim um amino\u00e1cido na enzima e reduzindo drasticamente sua atividade catal\u00edtica no processamento daquela fonte de alimento. \u00c9 certo que o exemplo \u00e9 um tanto estilizado, mas capta o tipo de experimento que Miller cita com frequ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, tomando essas bact\u00e9rias modificadas, o experimentador as submete a um regime de sele\u00e7\u00e3o que as come\u00e7a numa fonte de alimento para a qual n\u00e3o precisam da enzima desativada. Mas, com o tempo, elas recebem cada vez mais da fonte de alimento para a qual a enzima \u00e9 necess\u00e1ria, e cada vez menos das outras, para as quais n\u00e3o precisam dela. Sob tal regime de sele\u00e7\u00e3o, a bact\u00e9ria precisa recuperar a capacidade de processar o alimento para o qual antes precisava da enzima \u2014 presumivelmente por meio de uma muta\u00e7\u00e3o no DNA danificado que originalmente a codificava, recuperando assim a enzima; do contr\u00e1rio, passaria fome e morreria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, onde est\u00e1 o problema para a evolu\u00e7\u00e3o em tudo isso? \u00c9 certo que o regime de sele\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 um caso de sele\u00e7\u00e3o artificial \u2014 o experimentador controla cuidadosamente o ambiente bacteriano, decidindo quais bact\u00e9rias vivem ou morrem. Mas a natureza parece perfeitamente capaz de fazer algo semelhante. O n\u00e1ilon, por exemplo, \u00e9 um produto sint\u00e9tico inventado pelo homem em 1935 e, portanto, esteve ausente do mundo bacteriano durante quase toda a sua hist\u00f3ria. E, no entanto, as bact\u00e9rias desenvolveram a capacidade de digerir n\u00e1ilon, evoluindo a enzima <em>nilonase<\/em>. Sim, essas bact\u00e9rias ganham novas informa\u00e7\u00f5es \u2014 mas as ganham de seus ambientes, ambientes que, presumivelmente, n\u00e3o precisam estar sujeitos a orienta\u00e7\u00e3o inteligente. Nenhum experimentador, aplicando sele\u00e7\u00e3o artificial, decidiu produzir a <em>nilonase<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ver que ainda h\u00e1 um problema para a evolu\u00e7\u00e3o em tudo isso, precisamos examinar mais de perto a conex\u00e3o entre busca e informa\u00e7\u00e3o, e como esses conceitos entram numa formula\u00e7\u00e3o precisa da conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Feito isso, voltaremos aos exemplos de evolu\u00e7\u00e3o do tipo Miller para ver por que os processos evolutivos n\u00e3o criam \u2014 e de fato n\u00e3o podem criar \u2014 a informa\u00e7\u00e3o de que os sistemas biol\u00f3gicos necessitam. A maioria dos espa\u00e7os de configura\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u00e9 t\u00e3o grande, e os alvos que apresentam s\u00e3o t\u00e3o pequenos, que \u00e9 altamente improv\u00e1vel que a busca cega (a qual, em \u00faltima an\u00e1lise, sob princ\u00edpios materialistas, se reduz \u00e0 agita\u00e7\u00e3o dos constituintes moleculares da vida mediante for\u00e7as de atra\u00e7\u00e3o e repuls\u00e3o) tenha sucesso. Em consequ\u00eancia, \u00e9 necess\u00e1ria alguma busca alternativa para que o alvo tenha chance razo\u00e1vel de ser localizado. Os processos evolutivos impulsionados pela sele\u00e7\u00e3o natural constituem uma busca alternativa. Sim, fazem um trabalho muito melhor que a busca cega \u2014 mas a um custo: <strong>um custo informacional, que esses processos t\u00eam de pagar, mas que s\u00e3o incapazes de gerar por conta pr\u00f3pria.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na literatura da teoria da informa\u00e7\u00e3o, a informa\u00e7\u00e3o costuma ser caracterizada como o logaritmo negativo, na base dois, de uma probabilidade (ou alguma m\u00e9dia logar\u00edtmica de probabilidades, muitas vezes chamada de entropia). Isso tem o efeito de converter probabilidades em bits e de permitir que sejam somadas (como dinheiro), em vez de multiplicadas (como probabilidades). Assim, uma probabilidade de um oitavo \u2014 que corresponde a obter tr\u00eas caras seguidas com uma moeda justa \u2014 corresponde a tr\u00eas bits, que \u00e9 o logaritmo negativo, na base dois, de um oitavo. Tal transforma\u00e7\u00e3o logar\u00edtmica das probabilidades \u00e9 \u00fatil na teoria da comunica\u00e7\u00e3o, na qual o que trafega pelos canais de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o bits, e n\u00e3o probabilidades, e a largura de banda do canal \u00e9 determinada aditivamente em n\u00famero de bits. N\u00e3o obstante, para os prop\u00f3sitos deste artigo \u201cMade Simple\u201d, podemos caracterizar a informa\u00e7\u00e3o \u2014 no que se refere \u00e0 busca \u2014 apenas em termos de probabilidades, tratando tamb\u00e9m a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o de modo puramente probabil\u00edstico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As probabilidades, tratadas como a informa\u00e7\u00e3o usada para facilitar a busca, podem ser concebidas, em termos financeiros, como um custo \u2014 um custo de informa\u00e7\u00e3o. Pense assim: suponha que haja algum evento que voc\u00ea queira que ocorra. Se for certo que ele ocorrer\u00e1 (isto \u00e9, se tiver probabilidade 1), ent\u00e3o voc\u00ea j\u00e1 o possui \u2014 n\u00e3o custa nada faz\u00ea-lo acontecer. Mas suponha que sua probabilidade de ocorrer seja menor que 1, digamos uma probabilidade <em>p<\/em>. Essa probabilidade mede, ent\u00e3o, um custo para voc\u00ea fazer o evento acontecer: quanto mais improv\u00e1vel o evento (ou seja, quanto menor <em>p<\/em>), maior o custo. \u00c0s vezes n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel elevar a probabilidade at\u00e9 1, o que a tornaria certa; em vez disso, voc\u00ea pode ter de se contentar em aument\u00e1-la para <em>q<\/em>, onde <em>q<\/em> \u00e9 menor que 1, mas maior que <em>p<\/em>. Esse aumento, por\u00e9m, tamb\u00e9m tem de ser pago. E, de fato, pagamos para aumentar probabilidades o tempo todo. Por exemplo, muitos estudantes pagam mensalidades para obter um diploma que melhore suas perspectivas (isto \u00e9, suas probabilidades) de conseguir um emprego bom e bem remunerado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma loteria justa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ilustrar o ponto com mais precis\u00e3o, imagine que voc\u00ea est\u00e1 jogando na loteria. Digamos que ela seja justa: o governo n\u00e3o fica com nada (ou seja, todo o valor arrecadado \u00e9 pago ao vencedor) e um bilhete certamente ser\u00e1 o vencedor. Suponha que um milh\u00e3o de bilhetes j\u00e1 tenham sido comprados, a um d\u00f3lar cada, e que exatamente um deles seja seu. Como cada bilhete tem a mesma probabilidade de ganhar, o seu tem uma chance em um milh\u00e3o de ser sorteado (esse \u00e9 o seu <em>p<\/em> atual), o que implica uma perda de um d\u00f3lar se voc\u00ea n\u00e3o ganhar e um ganho de quase um milh\u00e3o de d\u00f3lares se ganhar (US$ 999.999, para ser exato). Agora, digamos que voc\u00ea queira muito ganhar \u2014 por qualquer raz\u00e3o que seja, deseja ter o bilhete premiado em m\u00e3os. Nesse caso, voc\u00ea pode comprar bilhetes adicionais: ao faz\u00ea-lo, aumenta sua chance de ganhar. Digamos que voc\u00ea compre mais um milh\u00e3o de bilhetes, a um d\u00f3lar cada. Isso elevou sua probabilidade de ganhar de 0,000001 para 0,500110 \u2014 ou seja, para cerca de metade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aumentar a probabilidade de ganhar na loteria, portanto, tem um custo. Com probabilidade de cerca de 0,5 de ganhar, agora \u00e9 muito mais prov\u00e1vel que voc\u00ea leve aproximadamente um milh\u00e3o de d\u00f3lares. Mas tamb\u00e9m custou um milh\u00e3o de d\u00f3lares aumentar essa probabilidade. Como resultado, seu ganho esperado \u2014 computado, em termos estat\u00edsticos, como a probabilidade de ganhar multiplicada pelo que voc\u00ea ganharia, menos a probabilidade de perder multiplicada pelo que voc\u00ea perderia \u2014 \u00e9 igual a zero. Ali\u00e1s, por ser uma loteria justa, ele \u00e9 igual a zero tanto quando voc\u00ea comprou s\u00f3 um bilhete quanto quando comprou mais um milh\u00e3o. Assim, em termos estat\u00edsticos, investir mais nessa loteria n\u00e3o lhe rendeu nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 assim. N\u00e3o exatamente assim, porque ela se concentra na busca, ao passo que o exemplo anterior se concentrava na expectativa de utilidade econ\u00f4mica. Mas, assim como aumentar suas chances de ganhar na loteria comprando mais bilhetes n\u00e3o traz ganho real (n\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia de longo prazo para encher o bolso), tamb\u00e9m a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o afirma que aumentar a probabilidade de uma busca bem-sucedida exige recursos informacionais adicionais que, uma vez contabilizados os custos de obt\u00ea-los, em nada contribuem para facilitar a busca original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ver como isso funciona, consideremos um problema de brinquedo. Imagine que seu espa\u00e7o de busca consiste em apenas seis itens, rotulados de 1 a 6. Digamos que seu alvo \u00e9 o item 6 e que voc\u00ea vai vasculhar esse espa\u00e7o lan\u00e7ando um dado justo uma \u00fanica vez. Se sair 6, sua busca ter\u00e1 \u00eaxito; caso contr\u00e1rio, fracassa. Sua probabilidade de sucesso \u00e9, portanto, 1\/6. Agora suponha que voc\u00ea queira aumentar essa probabilidade para 1\/2. Voc\u00ea ent\u00e3o encontra uma m\u00e1quina que lan\u00e7a uma moeda justa e lhe entrega o item 6 se der cara, e algum outro item do espa\u00e7o de busca se der coroa. \u201cQue \u00f3tima m\u00e1quina\u201d, voc\u00ea pensa: ela aumenta significativamente a probabilidade de obter o item 6 (de 1\/6 para 1\/2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ent\u00e3o uma quest\u00e3o preocupante lhe passa pela cabe\u00e7a: de onde veio essa m\u00e1quina que aumenta sua probabilidade de sucesso? Uma m\u00e1quina que lan\u00e7a uma moeda justa e entrega o item 6 se a moeda der cara, e algum outro item do espa\u00e7o de busca se der coroa, \u00e9 facilmente reconfigur\u00e1vel. Ela poderia, com a mesma facilidade, entregar o item 5 se der cara, e algum outro item se der coroa. O mesmo vale para todos os demais itens do espa\u00e7o de busca: uma m\u00e1quina como a descrita pode privilegiar qualquer um dos seis itens, entregando-o com probabilidade 1\/2 em detrimento dos demais. Ent\u00e3o, como voc\u00ea obteve justamente a m\u00e1quina que privilegia o item 6? Ora, voc\u00ea teve de procurar, entre todas aquelas m\u00e1quinas que lan\u00e7am moedas e entregam um dado item com probabilidade 1\/2, exatamente a que entrega o item 6 quando sai cara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para manter as coisas simples, suponhamos que nossa m\u00e1quina forne\u00e7a o item 6 com probabilidade 1\/2 e cada um dos itens de 1 a 5 com igual probabilidade \u2014 ou seja, 1\/10. Essa m\u00e1quina \u00e9, portanto, uma de seis m\u00e1quinas poss\u00edveis, configuradas essencialmente da mesma maneira. H\u00e1 uma outra que lan\u00e7a uma moeda e entrega o item 1 do espa\u00e7o de busca original se der cara, e qualquer um dos itens de 2 a 6, com probabilidade 1\/10 cada, se a moeda cair em coroa. E assim por diante. Assim, dessas seis m\u00e1quinas, uma entrega o item 6 com probabilidade 1\/2, e as cinco restantes o entregam com probabilidade 1\/10. Como h\u00e1 seis m\u00e1quinas, apenas uma delas fornece o item 6 (nossa meta) com alta probabilidade; e, uma vez que apenas r\u00f3tulos \u2014 e nenhuma propriedade intr\u00ednseca \u2014 distinguem uma m\u00e1quina das demais nessa configura\u00e7\u00e3o (as m\u00e1quinas s\u00e3o, como diriam os matem\u00e1ticos, isom\u00f3rficas), o princ\u00edpio da indiferen\u00e7a se aplica a elas e prescreve que a probabilidade de obter a m\u00e1quina que entrega o item 6 com probabilidade 1\/2 \u00e9 a mesma de obter qualquer outra \u2014 e, portanto, 1\/6.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas uma probabilidade de 1\/6 de encontrar uma m\u00e1quina que entrega o item 6 com probabilidade 1\/2 n\u00e3o \u00e9 melhor que nossa probabilidade original de 1\/6 de encontrar o alvo simplesmente lan\u00e7ando um dado. De fato, mesmo de posse dessa m\u00e1quina, ainda temos apenas 50% de chance de localizar o item 6. Descobrir a m\u00e1quina tem um custo de probabilidade de 1\/6 e, uma vez incorrido esse custo, ainda nos resta um custo de probabilidade de 1\/2 para encontrar o item 6. Como os custos de probabilidade aumentam \u00e0 medida que as probabilidades diminuem, na verdade ficamos em situa\u00e7\u00e3o pior que a inicial, em que bastava lan\u00e7ar um dado para localizar o item 6 com probabilidade 1\/6.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A probabilidade de encontrar o item 6 por meio dessa m\u00e1quina, uma vez computado o custo probabil\u00edstico de obt\u00ea-la, acaba sendo 1\/6 \u00d7 1\/2 = 1\/12. Portanto, nossa tentativa de aumentar a probabilidade de encontrar o item 6 \u2014 localizando uma busca mais eficaz para esse item \u2014 saiu mesmo pela culatra, tornando ainda mais improv\u00e1vel que o encontremos. A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o diz que esse \u00e9 sempre um perigo quando tentamos aumentar a probabilidade de sucesso de uma busca: em vez de se tornar mais f\u00e1cil, a busca permanece t\u00e3o dif\u00edcil quanto antes \u2014 ou pode, como neste exemplo, tornar-se mais dif\u00edcil \u2014 quando se levam em conta os custos informacionais adicionais subjacentes, associados ao aprimoramento da busca e muitas vezes ocultos (como aqui) na tarefa de encontrar uma m\u00e1quina adequada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que \u00e9 chamado de &#8220;conserva\u00e7\u00e3o&#8221; da informa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raz\u00e3o pela qual se chama \u201cconserva\u00e7\u00e3o\u201d da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o melhor que podemos fazer \u00e9 <em>empatar<\/em>, deixando a busca n\u00e3o mais dif\u00edcil do que antes. Nesse caso, a informa\u00e7\u00e3o \u00e9, de fato, conservada. N\u00e3o raro, por\u00e9m \u2014 como neste exemplo \u2014, podemos sair-nos ainda pior ao tentar melhorar a probabilidade de uma busca bem-sucedida. Assim, podemos introduzir uma busca alternativa que aparenta melhorar a busca original, mas que, uma vez contabilizados os custos de obt\u00ea-la, na verdade agrava o problema de busca original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao falar de facilidade e dificuldade da busca, n\u00e3o estou sendo matematicamente impreciso. Facilidade e dificuldade, caracterizadas matematicamente, s\u00e3o sempre no\u00e7\u00f5es de complexidade te\u00f3rica, pressupondo uma medida de complexidade subjacente. Neste caso, a complexidade \u00e9 expressa em termos probabil\u00edsticos, de modo que a medida de complexidade \u00e9 uma medida de probabilidade: as buscas tornam-se mais f\u00e1ceis quanto mais prov\u00e1vel for localizar os alvos, e mais dif\u00edceis quanto menos prov\u00e1vel. Nesse sentido, tamb\u00e9m faz sentido falar do custo de uma busca \u2014 custo que sobe quanto mais dif\u00edcil a busca, e desce quanto mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todas essas discuss\u00f5es sobre conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 sempre uma busca mais dif\u00edcil que \u00e9 deslocada por uma busca mais f\u00e1cil; mas, uma vez contabilizada a dificuldade de encontrar a busca mais f\u00e1cil (dificuldade entendida, tamb\u00e9m ela, em termos probabil\u00edsticos), n\u00e3o h\u00e1 ganho \u2014 e, de fato, o custo total pode at\u00e9 ter subido. Em outras palavras, a probabilidade real de localizar o alvo com a busca mais f\u00e1cil n\u00e3o \u00e9 maior, e pode ser menor, do que com a busca mais dif\u00edcil, uma vez computada a probabilidade de localizar a busca mais f\u00e1cil. Tudo isso admite uma formula\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica precisa. Inerente a tal formula\u00e7\u00e3o est\u00e1 tratar a pr\u00f3pria busca como algo sujeito a busca. Se isso soa auto-referente, \u00e9 mesmo \u2014 mas tamb\u00e9m faz todo o sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ver isso, considere uma ca\u00e7a ao tesouro. Imagine procurar uma arca de tesouro enterrada numa ilha grande. Consideremos duas buscas, uma mais dif\u00edcil e outra mais f\u00e1cil. A mais dif\u00edcil, neste caso, \u00e9 uma busca cega na qual, sem saber onde o tesouro est\u00e1 enterrado, voc\u00ea perambula ao acaso pela ilha, cavando aqui e ali em busca dele. A mais f\u00e1cil, ao contr\u00e1rio, \u00e9 dispor de um mapa do tesouro no qual \u201co x marca o ponto\u201d onde ele est\u00e1, bastando seguir o mapa at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas onde voc\u00ea conseguiu esse mapa do tesouro? Os cart\u00f3grafos fizeram muitos mapas daquela ilha e, para cada um que marca com precis\u00e3o a localiza\u00e7\u00e3o do tesouro, h\u00e1 muitos outros que a marcam erradamente. Na verdade, para qualquer ponto da ilha existe um mapa que o assinala com um \u201cx\u201d. Ent\u00e3o, como achar o caminho, em meio a todos esses mapas, at\u00e9 aquele que marca corretamente a localiza\u00e7\u00e3o do tesouro? Evidentemente, a busca pelo tesouro foi <em>deslocada<\/em> para a busca de um mapa que o localize. Cada mapa corresponde a uma busca, e localizar o mapa correto corresponde a uma busca por uma busca (abreviada, na literatura sobre conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, como S4S \u2014 <em>search for a search<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, neste exemplo, diz que a probabilidade de localizar o tesouro buscando primeiro um mapa que identifique com precis\u00e3o sua localiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 maior \u2014 e pode ser menor \u2014 que a probabilidade de localiz\u00e1-lo por simples busca cega. Isso implica que a busca mais f\u00e1cil (ou seja, procurar com o mapa do tesouro na m\u00e3o), uma vez contabilizado o custo de encontr\u00e1-la, n\u00e3o facilitou a busca como um todo. Em geral, a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o afirma que, quando uma busca mais dif\u00edcil \u00e9 substitu\u00edda por uma mais f\u00e1cil, a probabilidade de encontrar o alvo \u2014 primeiro encontrando a busca mais f\u00e1cil e depois usando-a para encontrar o alvo \u2014 n\u00e3o \u00e9 maior, e muitas vezes \u00e9 menor, do que a probabilidade de encontrar o alvo diretamente com a busca mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No esp\u00edrito do \u201csem almo\u00e7o gr\u00e1tis\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer pessoa familiarizada com os teoremas do \u201csem almo\u00e7o gr\u00e1tis\u201d (NFL, na sigla em ingl\u00eas) ver\u00e1 de imediato que a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 no mesmo esp\u00edrito. O resultado dos teoremas NFL \u00e9 que nenhuma busca evolucion\u00e1ria supera a busca cega, uma vez contabilizada a informa\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 aptid\u00e3o (isto \u00e9, a paisagem de aptid\u00e3o). O NFL \u00e9 um grande equalizador: afirma que todas as buscas s\u00e3o essencialmente equivalentes \u00e0 busca cega quando vistas n\u00e3o da perspectiva de encontrar um alvo particular, mas quando se tira a m\u00e9dia entre os diferentes alvos poss\u00edveis que se pode buscar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o NFL tende ao igualitarismo, ao argumentar que nenhuma busca \u00e9, por si s\u00f3, melhor que a busca cega quando o alvo n\u00e3o \u00e9 especificado, a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o tende ao elitismo, ao tomar como ponto de partida que algumas buscas realmente s\u00e3o melhores que outras (medidas pela probabilidade) na localiza\u00e7\u00e3o de alvos especificados. No entanto, ela logo acrescenta que o status de elite dessas buscas n\u00e3o se deve a qualquer m\u00e9rito intr\u00ednseco da busca (em conformidade com o NFL), mas \u00e0 informa\u00e7\u00e3o que ela emprega para melhorar seu desempenho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas buscas s\u00e3o melhores \u2014 na verdade, muito melhores \u2014 que a busca cega; e, quando o s\u00e3o, \u00e9 porque empregam informa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do alvo. A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o calcula o custo informacional desse ganho de desempenho e mostra como ele deve ser contrabalan\u00e7ado por uma perda de desempenho da busca em outro ponto (especificamente, pela necessidade de buscar a informa\u00e7\u00e3o que eleva o desempenho da busca), de modo que o desempenho global na localiza\u00e7\u00e3o do alvo n\u00e3o melhora \u2014 e pode, de fato, piorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, ao concentrar-se na busca da informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para impulsionar o desempenho da busca, sugere uma ontologia relacional entre a busca e os objetos buscados. Numa ontologia relacional, as coisas s\u00e3o reais n\u00e3o como entidades isoladas, mas em virtude de sua rela\u00e7\u00e3o com outras coisas. Na ontologia relacional entre a busca e os objetos buscados, cada um encontra sua exist\u00eancia no outro. Nossa tend\u00eancia natural \u00e9 tomar os objetos como reais e as buscas por esses objetos como menos reais \u2014 no sentido de que a busca depende dos objetos buscados, mas os objetos poderiam existir independentemente da busca. Contudo, os objetos nunca nos chegam em si mesmos, e sim como reflexos padronizados do nosso conhecimento pr\u00e9vio e, portanto, como alvos de busca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer cena \u2014 na verdade, qualquer est\u00edmulo aos nossos sentidos \u2014 atinge nossa consci\u00eancia apenas por aspectos que se tornam salientes; e isso ocorre porque certos padr\u00f5es do nosso conhecimento pr\u00e9vio s\u00e3o acionados, com exclus\u00e3o de outros. Numa extens\u00e3o do \u201cser \u00e9 ser percebido\u201d (<em>esse est percipi<\/em>) de George Berkeley, a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o sugere que \u201cser percebido \u00e9 ser objeto de busca\u201d. Pela transitividade do racioc\u00ednio, segue-se que ser \u00e9 ser objeto de busca. E como a busca \u00e9 sempre a busca de um objeto, a busca e o objeto de busca tornam-se, nesse modo de pensar, mutuamente ontologizantes, dando exist\u00eancia um ao outro. A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o acrescenta, ent\u00e3o, que a busca pode ser, ela pr\u00f3pria, um objeto de busca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maioria das ontologias relacionais \u00e9 formulada em termos de acessibilidade causal: o que torna uma coisa real \u00e9 sua acessibilidade causal a outra. Mas, como a busca \u00e9 entendida probabilisticamente, a forma de acessibilidade relevante para uma ontologia relacional baseada na busca \u00e9 probabil\u00edstica. \u00c9 a acessibilidade probabil\u00edstica, mais que a causal, que fundamenta a ontologia relacional da busca. Pense numa agulha num palheiro; imagine que a agulha tem o tamanho de um el\u00e9tron e o palheiro, o tamanho do universo f\u00edsico conhecido. Buscas com probabilidade de sucesso t\u00e3o \u00ednfima, por meios cegos ou aleat\u00f3rios, s\u00e3o comuns na biologia. Os espa\u00e7os de configura\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica dos genes e prote\u00ednas poss\u00edveis, por exemplo, s\u00e3o imensos, e encontrar um gene ou prote\u00edna funcional nesses espa\u00e7os por busca cega pode ser muito mais improv\u00e1vel do que encontrar um el\u00e9tron arbitr\u00e1rio no universo f\u00edsico conhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que o Multiverso \u00e9 Incoerente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada uma agulha t\u00e3o pequena e um palheiro t\u00e3o grande, a busca cega \u00e9 efetivamente incapaz de encontrar uma agulha no palheiro. O sucesso, em vez disso, requer uma busca que eleve enormemente a probabilidade de encontrar a agulha. Mas de onde vem essa busca? E em que sentido a agulha existe \u00e0 parte dessa busca? Sem uma busca que torne prov\u00e1vel encontr\u00e1-la, talvez a agulha nem exista; e, de fato, provavelmente nem saber\u00edamos que ela existe, a n\u00e3o ser por uma busca que a torne prov\u00e1vel. \u00c9 por isso, ali\u00e1s, que considero o multiverso incoerente: o que torna o universo f\u00edsico conhecido cognosc\u00edvel \u00e9 que ele \u00e9 pass\u00edvel de busca. O multiverso, ao contr\u00e1rio, \u00e9 insond\u00e1vel. Numa ontologia relacional que torna a busca t\u00e3o real quanto os objetos buscados, o multiverso \u00e9 irreal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas considera\u00e7\u00f5es s\u00e3o altamente pertinentes \u00e0 biologia evolutiva, que toma a busca evolutiva como um dado \u2014 algo que n\u00e3o exigiria explica\u00e7\u00e3o al\u00e9m das for\u00e7as cegas da natureza. Mas, na medida em que a busca evolucion\u00e1ria torna probabilisticamente acess\u00edveis aspectos de um espa\u00e7o de configura\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica que antes, sob busca cega, eram probabilisticamente inacess\u00edveis, a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o diz que ela obt\u00e9m esse ganho de desempenho a um custo informacional. Assim, a busca evolutiva, que aprimora a busca cega, precisa ela mesma ser encontrada por meio de uma busca de ordem superior (ou seja, uma busca por uma busca, abreviada S4S) \u2014 a qual, uma vez levada em conta, faz a busca evolutiva n\u00e3o mais eficaz em encontrar o alvo do que a busca cega original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada essa discuss\u00e3o e a motiva\u00e7\u00e3o de fundo, estamos agora em condi\u00e7\u00f5es de oferecer uma formula\u00e7\u00e3o razoavelmente precisa da conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, a saber: <em>aumentar a probabilidade de sucesso de uma busca em nada contribui para tornar mais f\u00e1cil atingir o alvo e pode, de fato, torn\u00e1-lo mais dif\u00edcil, uma vez levados em conta os custos informacionais envolvidos nesse aumento de probabilidade<\/em>. A busca \u00e9 cara, e o custo tem de ser pago em informa\u00e7\u00e3o. As buscas alcan\u00e7am o sucesso n\u00e3o por criar informa\u00e7\u00e3o, mas por aproveitar a informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 existente. A informa\u00e7\u00e3o que conduz a uma busca bem-sucedida n\u00e3o admite pechinchas \u2014 apenas pechinchas aparentes, que ter\u00e3o de ser pagas integralmente em outro lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para um artigo \u201cMade Simple\u201d sobre conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 isto o que tenho a dizer quanto a um enunciado preciso da conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Bob Marks e eu provamos v\u00e1rios teoremas de conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o (veja a p\u00e1gina de publica\u00e7\u00f5es em <a href=\"http:\/\/www.evoinfo.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.evoinfo.org<\/a>). Cada um deles analisa algum modelo matem\u00e1tico espec\u00edfico de busca e mostra como elevar a probabilidade de sucesso de uma busca por um fator <em>q\/p<\/em> (&gt; 1) incorre num custo de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o inferior a log(<em>q\/p<\/em>) \u2014 ou, equivalentemente, num custo de probabilidade n\u00e3o superior a <em>p\/q<\/em>. Portanto, se come\u00e7armos com uma busca de probabilidade de sucesso <em>p<\/em> e a elevarmos para <em>q<\/em>, a probabilidade real de encontrar o alvo n\u00e3o \u00e9 <em>q<\/em>, mas algo menor ou igual a <em>q<\/em> \u00d7 (<em>p\/q<\/em>), ou seja, menor ou igual a <em>p<\/em> \u2014 que \u00e9 justamente a dificuldade de busca original. Em consequ\u00eancia, aumentar a probabilidade de sucesso de uma busca em nada contribui para encontrar o alvo, uma vez levado em conta o custo informacional desse aumento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o \u00e9 apenas um teorema, ou uma fam\u00edlia de teoremas, mas tamb\u00e9m um princ\u00edpio ou lei geral (lembre-se da \u201cLei da Conserva\u00e7\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o\u201d de Medawar). Uma vez provados tais teoremas, e uma vez repetidamente demonstrada sua aplicabilidade a uma ampla gama de problemas de busca (o Laborat\u00f3rio de Inform\u00e1tica Evolucion\u00e1ria mostrou, por exemplo, como algoritmos evolutivos tais como AVIDA, ev, Tierra e o WEASEL de Dawkins, todos eles, redistribuem \u2014 em vez de criar \u2014 informa\u00e7\u00e3o), a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o passa a ser vista n\u00e3o como um resultado restrito e isolado, mas como um princ\u00edpio ou lei fundamental, aplic\u00e1vel \u00e0 busca em geral. \u00c9 assim que a entendemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez de detalhar o aparato te\u00f3rico subjacente \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o \u2014 que \u00e9 s\u00f3lido e j\u00e1 apareceu em v\u00e1rios artigos revisados por pares na literatura de engenharia e matem\u00e1tica (veja a p\u00e1gina de publica\u00e7\u00f5es em <a href=\"http:\/\/www.evoinfo.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.evoinfo.org<\/a>; vale notar que nenhuma das cr\u00edticas a este trabalho apareceu na literatura cient\u00edfica\/de engenharia revisada por pares, embora algumas tenham surgido na literatura de filosofia da ci\u00eancia, como a revista <em>Biology and Philosophy<\/em>; a maioria das cr\u00edticas s\u00e3o diatribes na internet) \u2014, quero a seguir ilustrar a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o tal como se aplica a um dos principais exemplos apontados pelos evolucionistas como demonstra\u00e7\u00e3o dos poderes geradores de informa\u00e7\u00e3o dos processos evolutivos. Feito isso, quero considerar que luz a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o lan\u00e7a sobre a evolu\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um economista est\u00e1 encalhado numa ilha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para preparar o terreno, considere uma velha piada sobre um economista e v\u00e1rios outros cientistas que ficam presos numa ilha e descobrem uma lata de feij\u00e3o. Com fome, querem abri-la. Cada um recorre \u00e0 sua \u00e1rea de especialidade. O f\u00edsico calcula a trajet\u00f3ria de um proj\u00e9til que abriria a lata. O qu\u00edmico calcula o calor do fogo necess\u00e1rio para faz\u00ea-la estourar. E assim por diante. Cada um prop\u00f5e uma maneira concreta de abrir a lata, dados os recursos da ilha. Exceto o economista. O m\u00e9todo do economista para abrir a lata \u00e9 o desfecho da piada: <em>suponha um abridor de latas<\/em>. N\u00e3o h\u00e1, \u00e9 claro, abridor de latas algum na ilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A piada d\u00e1 a entender que os economistas s\u00e3o not\u00f3rios por fazer suposi\u00e7\u00f5es a que n\u00e3o t\u00eam direito. N\u00e3o sei o suficiente sobre economistas para dizer se isso \u00e9 verdade, mas sei que \u00e9 o caso de muitos bi\u00f3logos evolucionistas. O humor da solu\u00e7\u00e3o proposta pelo economista \u2014 meramente postular um abridor de latas \u2014, al\u00e9m da alfinetada no campo da economia, est\u00e1 na imagem bizarra de um abridor de latas vindo ao resgate de sobreviventes famintos sem qualquer respaldo para sua exist\u00eancia. O economista simplesmente faria o abridor materializar-se como num passe de m\u00e1gica. O abridor de latas \u00e9, em ess\u00eancia, um <em>deus ex machina<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, o campo da biologia evolutiva est\u00e1 repleto de <em>deus ex machinas<\/em> (sim, eu cursei latim e sei que este n\u00e3o \u00e9 o plural correto de <em>deus ex machina<\/em>, que seria <em>dei ex machinis<\/em>; mas este \u00e9 um artigo \u201csimples\u201d, feito para o populacho iletrado, do qual sou membro com carteirinha). S\u00f3 que o bi\u00f3logo evolucionista \u00e9 um pouco mais desonesto ao empregar \u2014 ou melhor, ao mobilizar \u2014 <em>deus ex machinas<\/em> do que o economista. Imagine nosso economista aconselhando algu\u00e9m que tem dificuldade de pagar uma d\u00edvida com um agiota do crime organizado. Coerente com o conselho que deu na ilha, nosso amigo economista poderia dizer: <em>suponha US$ 10.000 em dinheiro vivo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os US$ 10 mil de fato quitariam a d\u00edvida com o agiota, mas essa suposi\u00e7\u00e3o parece um tanto grosseira. Um bi\u00f3logo evolucionista, para soar mais plaus\u00edvel, acrescentaria uma camada de complexidade: <em>suponha uma chave de um cofre com US$ 10.000 em dinheiro dentro<\/em>. Essa chave \u00e9 t\u00e3o <em>deus ex machina<\/em> quanto os US$ 10.000. Mas a biologia evolutiva h\u00e1 muito domina a arte de mobilizar tais dispositivos \u2014 e at\u00e9 conquistou o direito de chamar essa mobiliza\u00e7\u00e3o de \u201cci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu gostaria de estar apenas brincando, mas h\u00e1 aqui mais verdade do que parece. Considere o conhecido exemplo METHINKS IT IS LIKE A WEASEL, de Richard Dawkins (de seu livro de 1986, <em>The Blind Watchmaker<\/em> \u2014 <em>O Relojoeiro Cego<\/em>)\u00b3 \u2014 um exemplo repetido e reelaborado sem fim por bi\u00f3logos que tentam fazer a evolu\u00e7\u00e3o parecer plaus\u00edvel, sendo a vers\u00e3o mais recente a do pesquisador do mundo de RNA Michael Yarus, em seu livro de 2010 <em>Life from an RNA World<\/em> (a frase-alvo de Yarus, ao contr\u00e1rio da de Dawkins, extra\u00edda de <em>Hamlet<\/em>, de Shakespeare, \u00e9 o famoso dito de Theodosius Dobzhansky: NOTHING IN BIOLOGY MAKES SENSE EXCEPT IN THE LIGHT OF EVOLUTION \u2014 \u201cnada na biologia faz sentido exceto \u00e0 luz da evolu\u00e7\u00e3o\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; font-size: 12px;\"><strong>Nota do tradutor\u00b3:<\/strong> <em>METHINKS IT IS LIKE A WEASEL<\/em> (\u201cParece-me uma doninha\u201d) \u00e9 uma fala de <em>Hamlet<\/em>, de Shakespeare. Mantemos a frase em ingl\u00eas, em mai\u00fasculas, por ser o alvo literal da simula\u00e7\u00e3o de Dawkins \u2014 repetido assim ao longo do texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um historiador ou estudioso da literatura, diante de METHINKS IT IS LIKE A WEASEL, teria todo o direito de dizer: <em>suponha que houve um escritor chamado William Shakespeare que a escreveu<\/em>. E, como a pessoa e a obra de Shakespeare foram objeto de controv\u00e9rsia (ele seria realmente uma mulher? ter\u00e1 existido? etc.), essa suposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 destitu\u00edda de conte\u00fado e m\u00e9rito. De fato, historiadores e estudiosos da literatura fazem tais suposi\u00e7\u00f5es o tempo todo \u2014 e faz\u00ea-lo \u00e9 parte daquilo pelo que s\u00e3o pagos. Os poemas hom\u00e9ricos s\u00e3o obra principalmente de um \u00fanico poeta, Homero, ou a elabora\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o de bardos? Mois\u00e9s escreveu o Pentateuco, ou ele \u00e9 o composto de v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es textuais, como na hip\u00f3tese document\u00e1ria? Jesus de fato existiu? (Dawkins e seus colegas ateus questionam seriamente se Jesus foi uma figura hist\u00f3rica real; cf. o filme <em>O Deus que N\u00e3o Estava L\u00e1<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso da frase-alvo METHINKS IT IS LIKE A WEASEL, Dawkins contorna a hip\u00f3tese de Shakespeare \u2014 ela seria \u00f3bvia demais e sugestiva demais de design. Em vez de postular Shakespeare, que seria uma intelig\u00eancia (ou designer) respons\u00e1vel pelo texto em quest\u00e3o (designers s\u00e3o um empecilho na teoria evolucion\u00e1ria convencional), Dawkins pede a seus leitores que <em>suponham um algoritmo evolucion\u00e1rio que fa\u00e7a evoluir a frase-alvo<\/em>. Mas tal algoritmo privilegia a frase-alvo ajustando a paisagem de aptid\u00e3o de modo que atribua maior aptid\u00e3o \u00e0s frases com mais letras coincidentes com o alvo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E de onde veio essa paisagem de aptid\u00e3o? Tal paisagem existe potencialmente para qualquer frase, n\u00e3o s\u00f3 para METHINKS IT IS LIKE A WEASEL. O algoritmo evolutivo de Dawkins poderia, portanto, ter evolu\u00eddo em qualquer dire\u00e7\u00e3o; e a \u00fanica raz\u00e3o pela qual evoluiu para METHINKS IT IS LIKE A WEASEL \u00e9 que ele selecionou cuidadosamente a paisagem de aptid\u00e3o para obter o resultado desejado. Dawkins, assim, livrou-se de Shakespeare como autor de METHINKS IT IS LIKE A WEASEL apenas para reintroduzi-lo como (co)autor da paisagem de aptid\u00e3o que facilita a evolu\u00e7\u00e3o de METHINKS IT IS LIKE A WEASEL.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fal\u00e1cia desse exemplo, com sua prestidigita\u00e7\u00e3o enganosa, j\u00e1 foi discutida <em>ad nauseam<\/em> por mim e por meus colegas da comunidade do design inteligente. Gastamos muito tempo e muita tinta nesse exemplo n\u00e3o por seu m\u00e9rito intr\u00ednseco, mas porque a pr\u00f3pria comunidade evolucion\u00e1ria continua t\u00e3o apegada a ele e repete continuamente sua fal\u00e1cia subjacente em vers\u00f5es cada vez mais intrincadas (AVIDA, Tierra, ev etc.). Para uma desconstru\u00e7\u00e3o cuidadosa do WEASEL de Dawkins, com uma simula\u00e7\u00e3o precisa sob controle do usu\u00e1rio, veja o projeto \u201cWeasel Ware\u201d no site da Evolutionary Informatics: <a href=\"http:\/\/www.evoinfo.org\/weasel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.evoinfo.org\/weasel<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o se aplica a esse exemplo? Diretamente. Obter METHINKS IT IS LIKE A WEASEL por busca cega (por exemplo, dispondo ao acaso pe\u00e7as de Scrabble numa fila) \u00e9 extremamente improv\u00e1vel. Ent\u00e3o Dawkins prop\u00f5e um algoritmo evolucion\u00e1rio \u2014 seu programa WEASEL \u2014 para obter essa sequ\u00eancia com maior probabilidade. Sim, esse algoritmo faz um trabalho muito melhor, com probabilidade bem maior de localizar o alvo. Mas a que custo? A um custo de improbabilidade ainda maior do que simplesmente localizar a sequ\u00eancia-alvo por busca cega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dawkins evita por completo essa quest\u00e3o do custo da informa\u00e7\u00e3o. Antecipando-se a qualquer exame cr\u00edtico da origem da informa\u00e7\u00e3o que faz sua simula\u00e7\u00e3o funcionar, ele tenta, por meio de truques ret\u00f3ricos, simplesmente induzir em seus leitores um espanto admirado diante do poder da evolu\u00e7\u00e3o: \u201cPuxa, n\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel como os processos evolutivos s\u00e3o poderosos, a ponto de produzir frases como METHINKS IT IS LIKE A WEASEL, que normalmente exigem intelig\u00eancia humana?\u201d. Mas Dawkins n\u00e3o est\u00e1 fazendo nada al\u00e9m de aconselhar nosso infeliz devedor do agiota a supor uma chave de um cofre com o dinheiro de que precisava. De onde veio a chave? Da mesma forma, de onde veio a paisagem de aptid\u00e3o que tornou prov\u00e1vel a evolu\u00e7\u00e3o de METHINKS IT IS LIKE A WEASEL? Em termos de conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria n\u00e3o foi criada internamente, mas apenas contrabandeada \u2014 neste caso, pelo pr\u00f3prio Dawkins.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma troca de e-mails com Richard Dawkins<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, eu me correspondia com Dawkins a respeito de sua simula\u00e7\u00e3o computacional do WEASEL. Num e-mail que me enviou, datado de 5 de maio de 2000, ele respondeu \u00e0s minhas cr\u00edticas \u00e0 teleologia oculta naquela simula\u00e7\u00e3o. Note que ele n\u00e3o responde diretamente ao desafio da conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o \u2014 e nem eu havia, \u00e0 \u00e9poca, desenvolvido essa ideia com clareza suficiente para empreg\u00e1-la na refuta\u00e7\u00e3o. Mais sobre isso em breve. Eis o que ele escreveu, exatamente como escreveu:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O argumento de que qualquer frase \u00e9 igualmente eleg\u00edvel como alvo est\u00e1 coberto na p\u00e1gina 7 [d\u2019<em>O Relojoeiro Cego<\/em>]: \u201cQualquer amontoado de pe\u00e7as embaralhadas \u00e9 \u00fanico e, EM RETROSPECTO, t\u00e3o improv\u00e1vel quanto qualquer outro\u2026\u201d e seguintes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais especificamente, a observa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea faz sobre o WEASEL \u00e9 admitida, sem rodeios, na p\u00e1gina 50: \u201cEmbora o modelo macaco\/Shakespeare seja \u00fatil para explicar a distin\u00e7\u00e3o entre sele\u00e7\u00e3o de etapa \u00fanica e sele\u00e7\u00e3o cumulativa, ele \u00e9 enganoso em aspectos importantes. Um deles \u00e9 que, em cada gera\u00e7\u00e3o de \u2018reprodu\u00e7\u00e3o\u2019 seletiva, as frases \u2018descendentes\u2019 mutantes eram julgadas segundo o crit\u00e9rio de semelhan\u00e7a com um alvo IDEAL DISTANTE\u2026 A vida n\u00e3o \u00e9 assim.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vida real, \u00e9 claro, o crit\u00e9rio de otimiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um alvo distante escolhido arbitrariamente, mas sim a SOBREVIV\u00caNCIA. \u00c9 simples assim. Isso n\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1rio. Veja da parte inferior da p\u00e1gina 8 ao topo da p\u00e1gina 9. E \u00e9 tamb\u00e9m um gradiente suave, n\u00e3o um salto repentino a partir de uma plan\u00edcie no espa\u00e7o de fase. Ou melhor: deve ser um gradiente suave em todos os casos em que a evolu\u00e7\u00e3o de fato aconteceu. Talvez existam \u00f3timos te\u00f3ricos inalcan\u00e7\u00e1veis porque a subida \u00e9 \u00edngreme demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O modelo WEASEL, como qualquer modelo, destina-se a ilustrar apenas um ponto, n\u00e3o a ser uma r\u00e9plica completa da coisa real. Inventei-o pura e simplesmente para rebater os criacionistas que ingenuamente haviam suposto que o espa\u00e7o de fase era totalmente plano, exceto por um pico vertical (que mais tarde representei como o penhasco \u00edngreme do Monte Improv\u00e1vel). O modelo WEASEL \u00e9 bom para refutar esse ponto, mas \u00e9 enganoso se tomado como um modelo completo do darwinismo. \u00c9 exatamente por isso que incluo o trecho da p\u00e1gina 50.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez voc\u00ea deva dar uma olhada no trabalho de Spiegelman e outros sobre a evolu\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas de RNA num ambiente de RNA replicase. Descobriram que, repetidamente, se voc\u00ea \u201csemeia\u201d tal solu\u00e7\u00e3o com uma mol\u00e9cula de RNA, ela converge para um replicador de tamanho e forma espec\u00edficos, \u201c\u00f3timo\u201d, \u00e0s vezes chamado de minivariante de Spiegelman. Maynard Smith faz um bom e breve relato disso em seu livro <em>The Problems of Biology<\/em> (ver \u201cSpiegelman\u201d no \u00edndice). Orgel estendeu o trabalho, mostrando que ambientes qu\u00edmicos diferentes selecionam mol\u00e9culas de RNA diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teoria \u00e9 t\u00e3o bela, t\u00e3o poderosa. Por que voc\u00eas s\u00e3o t\u00e3o obstinadamente cegos \u00e0 sua eleg\u00e2ncia simples? Por que anseiam por \u201cdesign\u201d quando certamente deveriam ver que ele n\u00e3o explica nada? ISSO sim \u00e9 o que chamo de regresso. Voc\u00ea \u00e9 \u00f3timo em falar do quanto a complexidade IMPORTA. \u201cDesign\u201d \u00e9 a maior importa\u00e7\u00e3o que se poderia imaginar.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O e-mail de Dawkins levanta v\u00e1rias quest\u00f5es interessantes que, desde ent\u00e3o, t\u00eam recebido ampla discuss\u00e3o entre as diversas partes que debatem o design inteligente: o regresso do designer concebido pelo homem; se uma intelig\u00eancia projetista precisa ser complexa do mesmo modo que os sistemas biol\u00f3gicos s\u00e3o complexos; as condi\u00e7\u00f5es sob as quais a evolu\u00e7\u00e3o aumenta, em vez de diminuir, a complexidade; o significado evolutivo das minivariantes de Spiegelman; e como a geometria da paisagem de aptid\u00e3o facilita ou dificulta a evolu\u00e7\u00e3o. Tudo isso foi tratado extensamente na literatura do design e n\u00e3o ser\u00e1 reprisado aqui (para mais sobre essas quest\u00f5es, veja meus livros <em>No Free Lunch<\/em> e <em>The Design Revolution<\/em>, bem como <em>The Edge of Evolution<\/em> \u2014 <em>A Borda da Evolu\u00e7\u00e3o<\/em> \u2014, de Michael Behe).<br \/>\n<strong>\u201cApenas uma palavra: pl\u00e1sticos\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto em que quero me concentrar \u00e9 a resposta de uma s\u00f3 palavra que Dawkins d\u00e1 \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de que sua simula\u00e7\u00e3o WEASEL incorpora uma teleologia injustificada \u2014 injustificada \u00e0 luz da compreens\u00e3o darwiniana da evolu\u00e7\u00e3o, da qual seu <em>Relojoeiro Cego<\/em> \u00e9 uma apologia. A frase-chave da cita\u00e7\u00e3o acima \u00e9: \u201cNa vida real, \u00e9 claro, o crit\u00e9rio de otimiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um alvo distante escolhido arbitrariamente, mas a SOBREVIV\u00caNCIA.\u201d A sobreviv\u00eancia \u00e9, certamente, condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a evolu\u00e7\u00e3o da vida. Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sobrevivendo, est\u00e1 morto; e, se est\u00e1 morto, n\u00e3o est\u00e1 evoluindo \u2014 ponto final. Mas chamar a \u201csobreviv\u00eancia\u201d, em larga escala, de crit\u00e9rio de otimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 rid\u00edculo. Ao ler isso, v\u00eam-me imagens de Dustin Hoffman em <em>The Graduate<\/em> (<em>A Primeira Noite de um Homem<\/em>) sendo levado a um canto, numa festa, por um executivo prestes a revelar o segredo do sucesso: PLASTICS (\u201cpl\u00e1sticos\u201d) \u2014 voc\u00ea pode assistir ao clipe <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PSxihhBzCjk\">clicando aqui<\/a>. No quesito maiores respostas simplistas de uma s\u00f3 palavra j\u00e1 dadas, Dawkins est\u00e1 \u00e0 altura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas talvez eu esteja lendo Dawkins sem caridade. Presumivelmente, o que ele de fato quer dizer \u00e9 sobreviv\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o diferenciais, conforme a sele\u00e7\u00e3o natural e a varia\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria. Est\u00e1 bem, estou disposto a aceitar que seja isso o que ele quer dizer. Mas, mesmo nessa leitura mais caridosa, sua caracteriza\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 enganosa e equivocada. Ken Miller desenvolve essa leitura mais caridosa em seu livro recente <em>Only a Theory<\/em>. Nele, pergunta o que \u00e9 necess\u00e1rio para impulsionar o aumento da informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica ao longo da evolu\u00e7\u00e3o. Sua resposta? \u201cApenas tr\u00eas coisas: sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o\u2026 de onde a informa\u00e7\u00e3o \u2018vem\u2019 \u00e9, na verdade, do pr\u00f3prio processo seletivo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 f\u00e1cil ver que Miller est\u00e1 soltando fuma\u00e7a mesmo sem os recursos da moderna teoria da informa\u00e7\u00e3o. Basta entender uma l\u00f3gica simples, j\u00e1 conhecida nos tempos de Darwin, acerca da natureza da explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ao isolar causas poss\u00edveis. De fato, a recep\u00e7\u00e3o do darwinismo pela biologia poderia ter sido bem menos favor\u00e1vel se os cientistas tivessem prestado mais aten\u00e7\u00e3o ao contempor\u00e2neo de Darwin, John Stuart Mill. Em 1843, dezesseis anos antes da publica\u00e7\u00e3o de <em>A Origem das Esp\u00e9cies<\/em>, de Darwin, Mill publicou a primeira edi\u00e7\u00e3o de seu <em>A System of Logic<\/em> (que, at\u00e9 a d\u00e9cada de 1880, passaria por oito edi\u00e7\u00f5es). Nessa obra, Mill apresenta v\u00e1rios m\u00e9todos de indu\u00e7\u00e3o. O que nos interessa aqui \u00e9 o seu <em>m\u00e9todo da diferen\u00e7a<\/em>. Em seu <em>System of Logic<\/em>, Mill o descreveu da seguinte maneira:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se uma inst\u00e2ncia em que o fen\u00f4meno sob investiga\u00e7\u00e3o ocorre e uma inst\u00e2ncia em que ele n\u00e3o ocorre t\u00eam todas as circunst\u00e2ncias em comum, exceto uma \u2014 esta presente apenas na primeira \u2014, ent\u00e3o a circunst\u00e2ncia em que os dois casos diferem \u00e9 o efeito, ou a causa, ou parte indispens\u00e1vel da causa, do fen\u00f4meno.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essencialmente, esse m\u00e9todo diz que descobrir qual de um conjunto de circunst\u00e2ncias \u00e9 respons\u00e1vel por uma diferen\u00e7a observada nos resultados exige encontrar uma diferen\u00e7a nas circunst\u00e2ncias. Um corol\u00e1rio imediato \u00e9 que circunst\u00e2ncias comuns n\u00e3o podem explicar uma diferen\u00e7a nos resultados. Assim, se uma pessoa est\u00e1 s\u00f3bria e outra, b\u00eabada, e se ambas comeram batatas fritas, salsa e pipoca, esse fato, comum \u00e0s duas, n\u00e3o explica \u2014 e de fato n\u00e3o pode explicar \u2014 a diferen\u00e7a. Em vez disso, a diferen\u00e7a se explica por uma delas se abster de \u00e1lcool e a outra beber demais. O m\u00e9todo da diferen\u00e7a de Mill, t\u00e3o amplamente usado tanto na vida cotidiana quanto na ci\u00eancia, \u00e9 crucialmente relevante para a biologia evolutiva. De fato, ajuda a trazer algum senso de propor\u00e7\u00e3o e realismo \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es infladas t\u00e3o frequentemente feitas em nome dos processos darwinianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplo: o exagero evolutivo de Miller, ao alegar que \u201ctudo o que \u00e9 preciso para impulsionar\u201d os aumentos da informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica s\u00e3o \u201capenas tr\u00eas coisas: sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o\u201d. O m\u00e9todo da diferen\u00e7a de Mill desmente essa afirma\u00e7\u00e3o. \u00c9 f\u00e1cil escrever simula\u00e7\u00f5es de computador que apresentem sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o (ou sobreviv\u00eancia global, ou sobreviv\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o diferenciais, ou qualquer redu\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios darwinianos) \u2014 <em>e isso n\u00e3o leva absolutamente a lugar nenhum<\/em>. Em conjunto, sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazem m\u00e1gica e n\u00e3o precisam resolver problema interessante algum, nem produzir padr\u00f5es salientes. Dito isso, a computa\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria \u00e9 empregada com sucesso no campo da otimiza\u00e7\u00e3o \u2014 logo, \u00e9 poss\u00edvel escrever simula\u00e7\u00f5es que apresentam sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o e que <em>v\u00e3o<\/em> a algum lugar, resolvendo problemas interessantes ou produzindo padr\u00f5es salientes. Mas, precisamente porque sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o s\u00e3o comuns a todas essas simula\u00e7\u00f5es, elas n\u00e3o podem, como ressalta o m\u00e9todo de Mill, explicar a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um engenheiro da Boeing costumava chamar a si mesmo de \u201cartista de penalidades\u201d. Uma fun\u00e7\u00e3o de penalidade n\u00e3o passa de outro nome para a paisagem de aptid\u00e3o (embora os n\u00fameros sejam invertidos: quanto maior a penalidade, menor a aptid\u00e3o). Criar as fun\u00e7\u00f5es de penalidade adequadas permitia a essa pessoa resolver seus problemas de engenharia. A maioria dessas fun\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, \u00e9 completamente in\u00fatil. Al\u00e9m disso, todas elas operam no contexto de um ambiente de computa\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria que apresenta a tr\u00edade de Miller \u2014 sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, o que faz a diferen\u00e7a? \u00c9 que o engenheiro, conhecendo o problema que tenta resolver, adapta cuidadosamente a fun\u00e7\u00e3o de penalidade ao problema, aumentando assim a probabilidade de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o escolhe suas fun\u00e7\u00f5es de penalidade a esmo; se o fizesse, n\u00e3o estaria trabalhando na Boeing. Ele \u00e9 um artista, e sua arte (design inteligente) consiste em encontrar as fun\u00e7\u00f5es de penalidade que resolvem seus problemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Correspondo-me com Miller e Dawkins desde 2000. Miller e eu j\u00e1 nos enfrentamos em v\u00e1rias ocasi\u00f5es em debates p\u00fablicos (em junho de 2012, <a href=\"http:\/\/www.evolutionnews.org\/2012\/06\/science_and_rel061411.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui<\/a>). Dawkins recusa todos esses encontros. Seja como for, conhecemos o trabalho uns dos outros e, ainda assim, nunca consegui obter de nenhum deles a simples admiss\u00e3o de que a l\u00f3gica do m\u00e9todo da diferen\u00e7a de Mill \u00e9 v\u00e1lida e se aplica \u00e0 teoria evolutiva \u2014 deixando sem solu\u00e7\u00e3o o problema da informa\u00e7\u00e3o na biologia, mesmo depois de invocados os axiomas darwinianos de sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e varia\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>Verdade Inconveniente de John Stuart Mill<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez disso, Miller permanece um darwinista ortodoxo, e Dawkins vai ainda mais longe, abra\u00e7ando um darwinismo universal que v\u00ea a evolu\u00e7\u00e3o darwiniana como a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica conceb\u00edvel para a diversifica\u00e7\u00e3o da vida na hist\u00f3ria natural. Como escreveu em <em>The Blind Watchmaker<\/em> \u2014 e continua a crer:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu argumento ser\u00e1 que o darwinismo \u00e9 a \u00fanica teoria conhecida que \u00e9, em princ\u00edpio, capaz de explicar certos aspectos da vida. Se estou certo, isso significa que, mesmo que n\u00e3o houvesse nenhuma evid\u00eancia concreta a favor da teoria darwiniana (h\u00e1, \u00e9 claro), ainda assim estar\u00edamos justificados em preferi-la a todas as teorias rivais.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9todo da diferen\u00e7a de Mill \u00e9 uma verdade inconveniente para Dawkins e Miller, mas \u00e9 uma verdade que precisa ser enfrentada. Pela sua disposi\u00e7\u00e3o de encar\u00e1-la, respeito Stuart Kauffman infinitamente mais do que Miller ou Dawkins. Miller e Dawkins s\u00e3o darwinistas convictos, empenhados em manter o mundo seguro para seu santo padroeiro. Kauffman \u00e9 um esp\u00edrito livre, disposto a admitir os problemas onde eles aparecem. Ele, ao menos, v\u00ea que h\u00e1 um problema em afirmar que o mecanismo darwiniano pode gerar informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u2014 ainda que sua pr\u00f3pria abordagem auto-organizacional esteja longe de resolv\u00ea-lo. Como Kauffman escreve em <em>Investigations<\/em>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se muta\u00e7\u00e3o, recombina\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o s\u00f3 funcionam bem em certos tipos de paisagem de aptid\u00e3o, mas a maioria dos organismos \u00e9 sexuada e, portanto, usa recombina\u00e7\u00e3o, e todos os organismos usam a muta\u00e7\u00e3o como mecanismo de busca, de onde vieram essas paisagens de aptid\u00e3o t\u00e3o bem ajustadas, que permitem \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o produzir as coisas extravagantes ao nosso redor?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Kauffman, \u201cningu\u00e9m sabe\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A observa\u00e7\u00e3o de Kauffman aqui est\u00e1 inteiramente de acordo com a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. De fato, ele a faz no contexto da discuss\u00e3o dos teoremas do \u201csem almo\u00e7o gr\u00e1tis\u201d, dos quais a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma extens\u00e3o l\u00f3gica. A paisagem de aptid\u00e3o fornece informa\u00e7\u00e3o ao processo evolutivo. Apenas paisagens de aptid\u00e3o finamente ajustadas \u2014 suficientemente suaves, que n\u00e3o isolem os \u00f3timos locais e, acima de tudo, recompensem a complexidade crescente na estrutura e na fun\u00e7\u00e3o biol\u00f3gicas \u2014 s\u00e3o adequadas para conduzir um processo evolutivo pleno. Ent\u00e3o, de onde v\u00eam essas paisagens de aptid\u00e3o? Na aus\u00eancia de uma intelig\u00eancia extr\u00ednseca, a \u00fanica resposta parece ser <em>o ambiente<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como ouvi SURVIVAL (\u201csobreviv\u00eancia\u201d) como resposta de uma s\u00f3 palavra para o problema da gera\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, tamb\u00e9m ouvi AMBIENTE. Ernan McMullin, por exemplo, apresentou-me esse argumento durante um jantar na Universidade de Chicago em 1999, entoando essa palavra (\u201cambiente\u201d) como se fosse a solu\u00e7\u00e3o para tudo o que aflige a evolu\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 bem: ent\u00e3o o ambiente fornece a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para impulsionar a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Mas onde o ambiente obteve essa informa\u00e7\u00e3o? De si mesmo? O problema dessa resposta \u00e9 o seguinte: a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o implica que, sem informa\u00e7\u00e3o adicional, o problema da informa\u00e7\u00e3o na biologia permanece constante (d\u00e1 no mesmo) ou se intensifica (piora) quanto mais recuamos no tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a magia da evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em que ela precisa explicar a complexidade posterior em termos de uma simplicidade anterior; mas a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o diz que nunca houve um estado anterior de simplicidade primordial \u2014 a informa\u00e7\u00e3o, na aus\u00eancia de input externo, tinha de estar ali desde o in\u00edcio. N\u00e3o \u00e9 proeza alguma da teoriza\u00e7\u00e3o evolutiva explicar como o peixe das cavernas perdeu o uso dos olhos ap\u00f3s longos per\u00edodos de priva\u00e7\u00e3o de luz. Olhos funcionais que se transformam em manchas oculares sem fun\u00e7\u00e3o s\u00e3o um rebaixamento da complexidade \u00e0 simplicidade. Como um caso de \u201cusar ou perder\u201d (<em>use-it-or-lose-it<\/em>), isso n\u00e3o requer explica\u00e7\u00e3o. A evolu\u00e7\u00e3o ganha aplausos \u00e9 por pretender explicar como coisas como olhos que enxergam podem evoluir, antes de mais nada, a partir de estruturas anteriores mais simples, incapazes de enxergar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o processo evolutivo pudesse de fato criar tal informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, ent\u00e3o a evolu\u00e7\u00e3o da simplicidade para a complexidade n\u00e3o seria problem\u00e1tica. Mas o processo evolutivo concebido por Darwin e promulgado por seus sucessores n\u00e3o \u00e9 teleol\u00f3gico. Por conseguinte, ele n\u00e3o pode empregar a atividade da intelig\u00eancia, sob pretexto algum, para aumentar a informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. E, sem o aporte inteligente, a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o implica que, \u00e0 medida que recuamos a informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica no tempo, a quantidade de informa\u00e7\u00e3o a ser explicada nunca diminui \u2014 e pode, na verdade, aumentar.<br \/>\n<strong>Explicando o sucesso do Walmart ao invocar rodovias interestaduais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e a aus\u00eancia de input inteligente, a informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u2014 com a complexidade que vemos hoje \u2014 deve estar sempre presente no universo, de uma forma ou de outra, recuando at\u00e9 mesmo ao Big Bang. Mas onde, no Big Bang, com um calor e uma densidade que excluem qualquer forma de vida no in\u00edcio da hist\u00f3ria do universo, est\u00e1 a informa\u00e7\u00e3o para o surgimento e o desenvolvimento subsequente da vida no planeta Terra? A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o diz que essa informa\u00e7\u00e3o tem de estar ali, em forma embrion\u00e1ria, no Big Bang e em todos os instantes seguintes. Ent\u00e3o, onde est\u00e1? Como est\u00e1 representada? No ambiente, voc\u00ea diz? Invocar o ambiente como fonte da informa\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 conversa vazia \u2014 da mesma ordem que invocar o sistema rodovi\u00e1rio interestadual como a raz\u00e3o do sucesso comercial do Walmart. H\u00e1 alguma conex\u00e3o, com certeza, mas nenhuma delas oferece compreens\u00e3o ou explica\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ver mais claramente o que est\u00e1 em jogo aqui, imagine pe\u00e7as de Scrabble dispostas em sequ\u00eancia para formar frases significativas (como METHINKS IT IS LIKE A WEASEL). Suponha que uma m\u00e1quina, com sensores adequados, bra\u00e7os e garras m\u00f3veis, retire as pe\u00e7as de Scrabble de uma caixa e as disponha dessa forma. Dizer que o ambiente organizou as pe\u00e7as de Scrabble para formar frases significativas \u00e9, neste caso, pouco esclarecedor. Sim, em termos gerais, o ambiente est\u00e1 organizando as pe\u00e7as em frases significativas. Mas, mais precisamente, \u00e9 uma m\u00e1quina rob\u00f3tica \u2014 presumivelmente executando um programa com as frases significativas devidamente codificadas \u2014 que est\u00e1 fazendo o arranjo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simplesmente invocar o ambiente, sem maiores detalhes, portanto, nada explica sobre o arranjo das pe\u00e7as de Scrabble em frases significativas. O que, exatamente, no ambiente explica a informa\u00e7\u00e3o transmitida nesses arranjos de pe\u00e7as de Scrabble? E o que, no ambiente, explica a informa\u00e7\u00e3o transmitida na organiza\u00e7\u00e3o dos sistemas biol\u00f3gicos? Essa \u00e9 a pergunta que precisa ser respondida. Sem uma resposta a ela, os apelos ao ambiente s\u00e3o vazios e apenas encobrem nossa ignor\u00e2ncia quanto \u00e0s verdadeiras fontes da informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com uma m\u00e1quina que organiza pe\u00e7as de Scrabble, podemos tentar abri-la e ver o que ela faz (\u201cAh, aqui est\u00e1 o c\u00f3digo que diz METHINKS IT IS LIKE A WEASEL\u201d). J\u00e1 com o ambiente real da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica n\u00e3o podemos, por assim dizer, olhar sob o cap\u00f4. Vemos for\u00e7as naturais como vento, ondas, eros\u00e3o, raios, movimento browniano, atra\u00e7\u00e3o, repuls\u00e3o, afinidades de liga\u00e7\u00e3o e afins. E vemos gradientes em que um organismo prospera e outros sucumbem. Se tal ambiente estivesse organizando pe\u00e7as de Scrabble em sequ\u00eancia, observar\u00edamos as pe\u00e7as sopradas pelo vento, ou empurradas pelas ondas, ou levitadas por \u00edm\u00e3s. E se, ao fim e ao cabo, encontr\u00e1ssemos pe\u00e7as de Scrabble formando frases coerentes em ingl\u00eas, como METHINKS IT IS LIKE A WEASEL, ter\u00edamos todo o direito de inferir que uma intelig\u00eancia de algum modo cooptou o ambiente e nele inseriu informa\u00e7\u00e3o \u2014 ainda que n\u00e3o tenhamos a menor ideia de como.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse papel do ambiente, como provedor inescrut\u00e1vel de informa\u00e7\u00e3o, \u00e9, no entanto, inaceit\u00e1vel para os principais te\u00f3ricos evolucionistas. A seu ver, o modo como o ambiente insere informa\u00e7\u00e3o nos sistemas biol\u00f3gicos ao longo do curso da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 eminentemente verific\u00e1vel. D\u00e1-se, dizem eles, por um ac\u00famulo gradual de informa\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que a sele\u00e7\u00e3o natural se apoia em pequenas vantagens, cada qual podendo surgir por acaso, sem contribui\u00e7\u00e3o inteligente. Mas qual \u00e9 a evid\u00eancia disso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso nos leva de volta aos experimentos de nocaute (<em>knock-out<\/em>) que Ken Miller repetidamente prop\u00f5e para refutar o design inteligente, nos quais uma estrutura respons\u00e1vel por uma fun\u00e7\u00e3o foi desativada e ent\u00e3o, por press\u00e3o de sele\u00e7\u00e3o, a fun\u00e7\u00e3o (ou algo pr\u00f3ximo dela) foi recuperada. Em todos os seus exemplos, n\u00e3o h\u00e1 uma sequ\u00eancia extensa, de v\u00e1rias etapas, de mudan\u00e7as estruturais, cada qual conduzindo a uma vantagem funcional distinta. Tipicamente, \u00e9 apenas uma \u00fanica altera\u00e7\u00e3o de base nucleot\u00eddica ou de amino\u00e1cido o que se requer para recuperar a fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso vale mesmo para a evolu\u00e7\u00e3o da <em>nilonase<\/em>, mencionada antes. A nilonase n\u00e3o \u00e9 resultado de uma sequ\u00eancia de DNA inteiramente nova, codificadora dessa enzima. Pelo contr\u00e1rio: resultou de uma mudan\u00e7a estrutural no DNA j\u00e1 existente \u2014 a altera\u00e7\u00e3o de algumas letras gen\u00e9ticas \u2014, produzindo assim o gene da nilonase. A origem da nilonase \u00e9, portanto, an\u00e1loga a mudar o significado de <em>therapist<\/em> (\u201cterapeuta\u201d) inserindo um espa\u00e7o e obtendo <em>the rapist<\/em> (\u201co estuprador\u201d)\u2074. Para os detalhes sobre a evolu\u00e7\u00e3o da nilonase, veja um texto que escrevi em resposta a Miller no Uncommon Descent (<a href=\"http:\/\/www.uncommondescent.com\/evolution\/why-scientists-should-not-dismiss-intelligent-design\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; font-size: 12px;\"><strong>Nota do tradutor\u2074:<\/strong> o trocadilho s\u00f3 funciona em ingl\u00eas: <em>therapist<\/em> (\u201cterapeuta\u201d) \u2192 <em>the rapist<\/em> (\u201co estuprador\u201d), bastando inserir um espa\u00e7o. Em portugu\u00eas a brincadeira se perde; mantemos o exemplo no original.<\/p>\n<p><strong>O desafio duplo do design inteligente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O design inteligente sempre apresentou um desafio em duas frentes \u00e0 teoria evolucion\u00e1ria convencional. Por um lado, os proponentes do design t\u00eam contestado a ancestralidade comum. Descontinuidades no registro f\u00f3ssil e em supostas filogenias moleculares fizeram, para muitos de n\u00f3s (Michael Behe tendia a ser a exce\u00e7\u00e3o), com que a ancestralidade comum parecesse longe de convincente. Nossa relut\u00e2ncia aqui n\u00e3o \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica, mas simplesmente uma quest\u00e3o de evid\u00eancia: muitos de n\u00f3s, na comunidade do design inteligente, consideramos fraca a evid\u00eancia da ancestralidade comum, sobretudo quando deixamos os agrupamentos taxon\u00f4micos inferiores e passamos ao n\u00edvel de ordens, classes e, acima de tudo, filos (como na explos\u00e3o cambriana, em que todos os principais filos animais surgem repentinamente, sem precursores evidentes nas rochas pr\u00e9-cambrianas). E, de fato, se a ancestralidade comum cair, a teoria evolucion\u00e1ria convencional cai junto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, os proponentes do design argumentam que, mesmo que a ancestralidade comum seja v\u00e1lida, a evid\u00eancia de intelig\u00eancia na biologia \u00e9 convincente. A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 parte desse desafio de segunda ordem \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o. Te\u00f3ricos evolucionistas como Miller e Dawkins acham que, se conseguirem decompor a evolu\u00e7\u00e3o de um sistema biol\u00f3gico complexo numa sequ\u00eancia de pequenos passos \u2014 cada um realiz\u00e1vel por busca cega (por exemplo, muta\u00e7\u00f5es pontuais no DNA) e cada um conferindo uma vantagem funcional \u2014, ent\u00e3o a evid\u00eancia de design se desvanece. Mas n\u00e3o se desvanece. Independentemente da hist\u00f3ria evolutiva que se conte, a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o mostra que a informa\u00e7\u00e3o no produto final tinha de estar ali desde o come\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria realmente uma propriedade not\u00e1vel da natureza se a aptid\u00e3o, em todo o espa\u00e7o de configura\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, estivesse distribu\u00edda de tal modo que as vantagens pudessem ser acumuladas gradualmente por um processo darwiniano. Francamente, n\u00e3o vejo evid\u00eancia disso. Os exemplos citados por Miller mostram alguns pequenos aumentos de informa\u00e7\u00e3o associados \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o e ao aprimoramento de uma \u00fanica fun\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, mas dificilmente o aumento maci\u00e7o de informa\u00e7\u00e3o em que estruturas e fun\u00e7\u00f5es coevoluem e levam a casos marcantes de inven\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. A resposta usual ao meu ceticismo \u00e9: d\u00ea mais tempo \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o. Fico feliz em dar \u2014 mas, mesmo que o tempo permita \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o prosseguir de modo muito mais impressionante, o desafio que a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o coloca \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o permanece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No campo da evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica (em contraste com a biol\u00f3gica), as novas inven\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias nunca resultam de ajustes graduais nas tecnologias existentes. Estas, por certo, podem ser cooptadas para uso numa tecnologia revolucion\u00e1ria. Assim, quando Alexander Graham Bell inventou o telefone, valeu-se de tecnologias existentes, como fios, circuitos el\u00e9tricos e diafragmas. Mas estes foram reunidos e adaptados para um uso inovador e, \u00e0 \u00e9poca, sem precedentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas e se a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica se desse do mesmo modo que, segundo nos dizem, se d\u00e1 a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u2014 com as inven\u00e7\u00f5es \u00fateis ao homem sendo todas alcan\u00e7\u00e1veis por ajustes graduais de uma ou de algumas inven\u00e7\u00f5es primordiais? Uma consequ\u00eancia seria que pessoas que nada soubessem sobre o funcionamento das coisas, mas apenas entendessem o que \u00e9 beneficiar-se de uma fun\u00e7\u00e3o, poderiam tornar-se inventores da estatura de Bell e Edison. Mais significativamente, tal estado de coisas indicaria algo muito especial sobre a natureza da inven\u00e7\u00e3o humana: que ela estaria distribu\u00edda continuamente pelo espa\u00e7o de configura\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Isso seria not\u00e1vel. \u00c9 certo que n\u00e3o \u00e9 o que vemos. Em vez disso, vemos ilhas de inven\u00e7\u00e3o nitidamente desconexas, inacess\u00edveis umas \u00e0s outras por meros ajustes graduais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo valeria para a inven\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Se a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica procede por um ac\u00famulo gradual de vantagens funcionais, em vez de ficar encalhada em ilhas isoladas de fun\u00e7\u00e3o, cercadas por vastos mares de n\u00e3o fun\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a paisagem de aptid\u00e3o sobre o espa\u00e7o de configura\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica tem mesmo de ser muito especial (lembre-se dos coment\u00e1rios de Stuart Kauffman nesse sentido, anteriormente neste artigo). A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m e diz que qualquer informa\u00e7\u00e3o que venhamos a extrair do processo evolutivo j\u00e1 existia nessa paisagem de aptid\u00e3o, ou em algum outro aspecto do ambiente, ou foi inserida por uma intelig\u00eancia interveniente. O que a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o garante que n\u00e3o aconteceu \u00e9 que o processo evolutivo tenha criado essa informa\u00e7\u00e3o a partir do zero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 alguns anos, tive uma conversa interessante com Simon Conway Morris sobre o lugar da teleologia na evolu\u00e7\u00e3o. Segundo ele, a informa\u00e7\u00e3o que guia o processo evolutivo est\u00e1 embutida na natureza e n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel ao mecanismo darwiniano de sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o. Ele afirmou isso diretamente num e-mail que me enviou, datado de 20 de fevereiro de 2003, antecipando seu livro, ent\u00e3o no prelo, <em>Life&#8217;s Solution<\/em>. Cito o e-mail, em vez do livro, porque ele esclarece sua posi\u00e7\u00e3o melhor do que qualquer coisa que eu tenha lido dele depois. Eis a cita\u00e7\u00e3o do e-mail:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que n\u00e3o tenho certeza de que estejamos t\u00e3o distantes, ao menos em alguns aspectos. N\u00f3s dois, imagino, aceitamos que somos parte da boa cria\u00e7\u00e3o de Deus e que, apesar de sua diversidade, de modo algum todas as coisas s\u00e3o poss\u00edveis. No meu pr\u00f3ximo livro, <em>Life&#8217;s Solution<\/em> (CUP), defendo que certas propriedades biol\u00f3gicas da intelig\u00eancia est\u00e3o, por assim dizer, \u201ccabladas\u201d (<em>hard-wired<\/em>) no universo. Isso implica uma \u201cnavega\u00e7\u00e3o\u201d da evolu\u00e7\u00e3o por imensos \u201chiperespa\u00e7os\u201d de alternativas biol\u00f3gicas, quase todas mal-adaptativas [N.B.: isto significa que os hiperespa\u00e7os adaptativos formam um alvo de probabilidade muito baixa!]. Essas t\u00eanues estradas (ou \u201cburacos de minhoca\u201d) da evolu\u00e7\u00e3o definem uma estrutura biol\u00f3gica mais profunda, cuja principal evid\u00eancia \u00e9 a converg\u00eancia (minha velha lenga-lenga). Arqu\u00e9tipos hist\u00f3ricos e plat\u00f4nicos, se preferir, se encontram. Isso me parece significativamente distinto do DI: minha vis\u00e3o da Cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 muito rica (evidentemente), como tem uma estrutura subjacente que permite \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o atuar. A sele\u00e7\u00e3o natural, afinal, \u00e9 apenas um mecanismo; aquilo em que certamente concordamos \u00e9 a natureza dos produtos finais, ainda que discordemos sobre como vieram a ser.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 muito de que eu discorde aqui. Minha \u00fanica obje\u00e7\u00e3o a Conway Morris \u00e9 que ele \u00e9 hesitante demais em encontrar evid\u00eancias (aquilo que ele chama de \u201cprova\u201d) da teleologia no processo evolutivo. Critico essa hesita\u00e7\u00e3o na minha resenha de <em>Life&#8217;s Solution<\/em> para a <em>Books &amp; Culture<\/em> \u2014 uma resenha que saiu no ano seguinte a este e-mail (<a href=\"http:\/\/www.booksandculture.com\/articles\/2004\/novdec\/16.42.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui<\/a> para l\u00ea-la). A falha de Conway Morris \u00e9 n\u00e3o levar sua posi\u00e7\u00e3o at\u00e9 a conclus\u00e3o l\u00f3gica. Ele prefere criticar a teoria evolucionista convencional, com seu materialismo t\u00e1cito, do ponto de vista da teologia e da metaf\u00edsica. A converg\u00eancia aponta para um processo evolutivo altamente restrito, consistente com o design divino. Est\u00e1 bem, mas h\u00e1 mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fortemente restringida \u2014 e o mecanismo darwiniano da sele\u00e7\u00e3o natural \u00e9 apenas isto, um mecanismo, ainda que \u201cnavegue por imensos hiperespa\u00e7os de alternativas biol\u00f3gicas\u201d, confinando-se a \u201ct\u00eanues estradas de evolu\u00e7\u00e3o que definem uma estrutura biol\u00f3gica mais profunda\u201d \u2014, ent\u00e3o, na linguagem da conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es que permitem \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o atuar eficazmente na produ\u00e7\u00e3o da complexidade e da diversidade da vida s\u00e3o apenas um subconjunto min\u00fasculo, e portanto um alvo de probabilidade pequena, entre todas as condi\u00e7\u00f5es sob as quais a evolu\u00e7\u00e3o poderia atuar. E como a natureza deu justamente com essas condi\u00e7\u00f5es? Nesse caso, a natureza tem embutido nela n\u00e3o apenas um processo evolutivo gen\u00e9rico, que emprega sele\u00e7\u00e3o, replica\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o, mas um processo precisamente sintonizado para produzir as requintadas adapta\u00e7\u00f5es \u2014 ou, ouso dizer, os projetos (<em>designs<\/em>) \u2014 que permeiam a biologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde Conway Morris encontra apenas coer\u00eancia com sua cosmovis\u00e3o crist\u00e3 (temperada por uma fus\u00e3o de Darwin e Plotino), a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o mostra que o processo evolutivo tem embutidas em si ricas fontes de informa\u00e7\u00e3o que um materialismo pleno n\u00e3o pode justificar nem tem o direito de esperar. O melhor que tal materialismo pode fazer \u00e9 considerar um feliz acaso que a evolu\u00e7\u00e3o atue eficazmente, produzindo complexidade e diversidade biol\u00f3gicas cada vez maiores, quando a maioria das maneiras de atuar seria ineficaz \u2014 n\u00e3o produzindo vida alguma, ou ecossistemas enfadonhos (uma despropor\u00e7\u00e3o espelhada na literatura da computa\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria, em que a maioria das paisagens de aptid\u00e3o \u00e9 mal-adaptativa).<br \/>\n<strong>A li\u00e7\u00e3o da conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As improbabilidades associadas a fazer a evolu\u00e7\u00e3o funcionar n\u00e3o s\u00e3o, portanto, mais f\u00e1ceis de enfrentar do que as improbabilidades que enfrenta um processo evolutivo dependente apenas da busca cega. \u00c9 esta a relev\u00e2ncia da conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o para a evolu\u00e7\u00e3o: ela mostra que as vastas improbabilidades que a evolu\u00e7\u00e3o supostamente atenua, na verdade, nunca s\u00e3o atenuadas. Sim, voc\u00ea pode chegar ao topo do Monte Improv\u00e1vel; mas as ferramentas que permitem encontrar uma subida gradual montanha acima s\u00e3o t\u00e3o improv\u00e1veis quanto simplesmente escal\u00e1-la de uma s\u00f3 vez. Esta \u00e9 a li\u00e7\u00e3o da conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resta uma quest\u00e3o final: qual \u00e9 a fonte da informa\u00e7\u00e3o, na natureza, que permite que os alvos sejam buscados com sucesso? Se as for\u00e7as materiais cegas s\u00f3 podem redistribuir informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 existente, ent\u00e3o, de onde vem, em primeiro lugar, a informa\u00e7\u00e3o que possibilita uma busca bem-sucedida \u2014 seja na evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, na computa\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria, no ajuste fino cosmol\u00f3gico ou em qualquer outro dom\u00ednio? A resposta agora ser\u00e1 \u00f3bvia: da intelig\u00eancia. Sob princ\u00edpios materialistas, a intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 real, e sim um epifen\u00f4meno de processos materiais subjacentes. Mas, se a intelig\u00eancia \u00e9 real e possui poderes causais reais, ent\u00e3o ela pode fazer mais do que simplesmente redistribuir informa\u00e7\u00e3o \u2014 pode tamb\u00e9m cri\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, essa \u00e9 a propriedade definidora da intelig\u00eancia: sua capacidade de criar informa\u00e7\u00e3o \u2014 em especial, informa\u00e7\u00e3o que encontra agulhas em palheiros. Esse fato deveria ser mais \u00f3bvio e convincente para n\u00f3s do que qualquer fato das ci\u00eancias naturais, visto que (1) n\u00f3s mesmos somos seres inteligentes que criam informa\u00e7\u00e3o o tempo todo, por meio de nossos pensamentos e da nossa linguagem, e (2) as pr\u00f3prias ci\u00eancias naturais est\u00e3o logicamente a jusante da nossa capacidade de criar informa\u00e7\u00e3o (se n\u00e3o f\u00f4ssemos criadores de informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poder\u00edamos formular nossas teorias cient\u00edficas, muito menos buscar as que s\u00e3o empiricamente adequadas, e n\u00e3o haveria ci\u00eancia). A filosofia materialista, no entanto, inverte isso: torna a ci\u00eancia materialista primordial e, ent\u00e3o, define nossa intelig\u00eancia como inexistente, porque o materialismo n\u00e3o lhe deixa espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encerro com uma cita\u00e7\u00e3o de Descartes que, a despeito de seu dualismo de subst\u00e2ncia, compreendeu corretamente que a intelig\u00eancia jamais poderia ser reduzida a mat\u00e9ria cega e bruta agindo mecanicamente. A cita\u00e7\u00e3o \u00e9 do seu <em>Discurso do M\u00e9todo<\/em>. Ao l\u00ea-la, tenha em mente que, para o materialista, tudo \u00e9 uma m\u00e1quina \u2014 seja ele pr\u00f3prio, seja o processo evolutivo, seja o universo como um todo. Tudo, para o materialista, \u00e9 apenas mat\u00e9ria cega e bruta atuando mecanicamente. E tenha em mente, tamb\u00e9m, que a conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o mostra que essa vis\u00e3o materialista \u00e9 fundamentalmente incompleta, incapaz de explicar a informa\u00e7\u00e3o que anima a natureza. Eis a cita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora as m\u00e1quinas possam fazer certas coisas t\u00e3o bem quanto \u2014 ou talvez melhor que \u2014 qualquer um de n\u00f3s, elas infalivelmente falham em outras, pelas quais se descobre que n\u00e3o agem por conhecimento, mas apenas pela disposi\u00e7\u00e3o de seus \u00f3rg\u00e3os. Pois, ao passo que a raz\u00e3o \u00e9 um instrumento universal, apto a servir em todas as circunst\u00e2ncias, esses \u00f3rg\u00e3os precisam de uma disposi\u00e7\u00e3o particular para cada a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica; donde resulta ser moralmente imposs\u00edvel que haja, numa m\u00e1quina, diversidade suficiente para faz\u00ea-la agir em todas as ocorr\u00eancias da vida do mesmo modo que a nossa raz\u00e3o nos faz agir.<\/p>\n<\/blockquote>\n<hr \/>\n<p>Original: <strong>William A. Dembski<\/strong>. <a href=\"https:\/\/scienceandculture.com\/2012\/08\/conservation_of\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Conservation of Information Made Simple<\/a>. August 28, 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Exposta do modo mais simples poss\u00edvel: por que os processos evolutivos n\u00e3o podem criar a informa\u00e7\u00e3o que a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica exige \u2014 e o que isso revela sobre design e intelig\u00eancia.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":5382,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,22,39,40],"tags":[151,205,217,271,548,549,555,1075,765,1074,1077,1076,917,979],"class_list":["post-5379","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-critica","category-filosofia-do-design","category-teoria-da-informacao","category-traducao","tag-busca","tag-complexidade-especificada","tag-conservacao-da-informacao","tag-dembski","tag-kauffman","tag-kenneth-miller","tag-lei-da-conservacao-da-informacao","tag-no-free-lunch-nfl","tag-probabilidades","tag-richard-dawkins","tag-robert-marks","tag-simon-conway-morris","tag-teoria-da-informacao","tag-weasel"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Conserva\u00e7\u00e3o da Informa\u00e7\u00e3o de Um Modo Simples &#187; Portal TDI Brasil +<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A conserva\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, do modo mais simples: por que os processos evolutivos n\u00e3o criam a informa\u00e7\u00e3o que a vida exige. 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