Carta à Contramilitância

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O que nós somos?

Aos mais fortes gênios de nosso tempo, que de alguma forma resistem ao assédio ideológico – porque é necessária a maior determinação para se estar contra um mundo.

Estamos espalhados por todos os lugares, em uma primeira impressão não há unidade alguma. Em certo momento as falhas do conhecimento corrente nos apareceram. Mesmo que até insignificantes, essas falhas irradiaram para toda a superestrutura teórica e revelaram inúmeras outras. Construções teóricas imensas baseadas em miragens. O adormecer da razão produz quimeras. Esse despertar nos deu unidade.

O que nós somos? Por que contramilitância?

Nós somos uma resposta ao volume de narrativas corrente. Este é o primeiro ponto. Contramilitância porque no fim nos percebemos em uma guerra ideológica – simplesmente inexiste limiar entre boa parte do que chamam ciência hoje e as crenças do que convencionei “militância”. Como eles agem por uma paixão ardente, os chamei de militância e assim denominei todos que estão do lado de cá como contramilitância. Este é o segundo ponto. Estamos contra as quimeras e, por consequência, contra os seus ativistas.

Não digo que seja possível a liberdade pura de qualquer ideologia, mas que sejamos livres da dominação de “ideologias oficiais” de nosso tempo. Sabemos onde há ideologias pela tentativa de supressão do que lhe é contrário.

E a militância?

São ativistas que se colocam como defensores da ciência, mas a defesa real é a própria cosmovisão – metafísica particular (e ironicamente injustificável cientificamente). Apesar do caráter laico afirmado, são normalmente e abertamente anticristãos (sem qualquer implicância com outras religiões). A maior parte das atividades deles visa convencer público adolescente e jovem de concepções metafísicas injustificáveis de forma sutil através de suposta divulgação científica. Possuem forte tendencia de defesa a temas políticos. Alguma das estratégias incluem assédio e ridicularização (intimidação) – a alteração e o desequilíbrio emocional são constantes na militância tanto como a tentativa de supressão das críticas.

Uma forte tendência deles é tornar caótico o debate, seja gerando falsas premissas para os adversários (espantalhos), seja indo além das fronteiras do tema. Também trabalham em gerar desconfiança, desconsideração das credenciais e da boa fé de seus opositores, aplicam falácias conceituais e falácias genéticas, entre outras rotinas. Isso é interessante para a militância porque favorece o estado atual das coisas. Uma mudança tem necessariamente uma direção, um cenário caótico carece de direção e as coisas permanecem como estão. Podemos dizer que é uma estratégia semelhante a de “terra arrasada”, ou melhor, estragar o jogo quando o empate é favorável.

Já sobre a ciência propriamente dita:

Ninguém conhece melhor os erros e problemas de uma teoria do que aqueles que estudam ela (ao menos alguns). Dificilmente o que você apresentar será novidade. “Nossa, que desonestos, então eles escondem mesmo os erros!?”. Sim, tudo o que vemos é o que “deu certo”; e não é ser desonesto, não há qualquer razão ou viabilidade de se publicar os “fracassos”, ainda mais porque são muito mais volumosos que os “sucessos”. Tudo bem que até o que dizem ser sucesso recebe críticas destruidoras, mas isso é o que há de mais “sólido”. Porque eles acreditam nisso mesmo diante das refutações categóricas – problemas escabrosos e irremediáveis no cerne das teorias – por que iriam abandonar a crença por causa de críticas superficiais?

Não foi por falta de refutação que as ideias de sempre permanecem, nem por falta de aviso, muito menos por falta de vergonha na cara – as confissões sobre profundas inconsistências são bem conhecidas. Tentar qualquer variação de argumentos é apenas perda de tempo, é como tentar dissuadir um torcedor fanático.

O que é preciso entender é que as teorias não são o problema, mas como elas foram construídas. Os métodos científicos dependem de abordagens, considerações e pressupostos que podem gerar resultados radicalmente diferentes e cenários dramaticamente contrastantes. Sim, há uma vasta gama de artifícios para driblar a realidade e justificar qualquer teoria apenas com considerações (e desconsiderações) sutis ao procedimento padrão da ciência. Especialmente nas ciências históricas. Tenho chamado isso de falsificação da realidade. É aí que a inferência ao design foi preterida a priori e, ao percebermos isso tardiamente, constatamos o quanto a ciência dilatou alguns dados e suprimiu outros construindo uma realidade à parte do que estamos justificados a sustentar.

E vocês precisam entender todas essas coisas.

Alguns estão ansiosos por uma “virada”, por uma hegemonia, quando a nossa maior vitória é prevalecer em terreno desfavorável – nossos proponentes tem “varrido o chão” com membros de grandes centros acadêmicos. E não será diferente no Brasil.

Sobre uma militância inversa:

A esmagadora maioria das teorias científicas não são ensinadas nas escolas. Não há razões para que mais teorias sejam inclusas. Na verdade é bem suspeito que teorias frágeis e cheias de incertezas sejam ensinadas com as disciplinas tradicionais. Se alguém pensa em introduzir teorias na base da força ou das legislação, está seguindo um caminho autoritário. Hoje vemos outros ativistas tentando impor o que ficou conhecido como “ideologia de gênero” nas escolas desde a educação básica, o que é muito precipitado e vergonhoso.

Nos Estados Unidos um conselho propôs alertar sobre problemas nas teorias evolutivas e deixar a disposição um livro de referência ao DI para os alunos que se interessassem. No fim isso foi prejudicial à imagem da TDI. Podemos dizer que é muito menos que forçar o ensino de conteúdo estranho ao currículo, mas nem isso deve ser feito. Eu mesmo cresci em escolas públicas e pude rejeitar facilmente as teorias que aceitei como verdadeiras, sem muito prejuízo, logo após terminar o ensino médio. A vantagem do volume de narrativas deve ser dissolvido no volume de narrativas contrárias de qualidade superior que formam um novo contexto.

Alguns apologetas cristãos utilizam dos argumentos de inferência ao design para concluir a existência de Deus. Isso ocorre há tempos e é apreciado por um dos responsáveis pelo nascimento do Design Inteligente, Phillip E. Johnson. O problema é que ele propõe uma militância exatamente igual e no sentido inverso, pois é isso que está sintetizado na Estratégia da Cunha. Esse documento trás um espírito idêntico ao que move a militância. Esse “pagar na mesma moeda” acaba por ser tão prejudicial ao intelecto quanto o que a militância tem feito. Se à primeira vista parece justo, não é o que constatamos nos centros acadêmicos. Não é tarde para lembrar que os cristãos não devem tentar mudar o mundo, isso segundo a própria concepção da realidade, e de “mundo”, cristã. Também não é tarde recordar que a inferência ao design pode ser tão nociva ao cristianismo quanto qualquer outra, por isso os que argumentam se sustentando no design devem ter ciência da não exclusividade de suas conclusões.

Deixarei algumas considerações aqui sobre o cenário geral. São elas:

☆ O consenso da comunidade científica não é critério de verdade, nunca foi.
☆ A ciência foi “rebatizada” como conhecimento provisório quando cansaram de perceber que boa parte das teorias sempre estava errada. Posteriormente contaminaram a ciência convencional com essa “incerteza”.
☆ A demonstração de erro em uma hipótese não garante sua rejeição (o mesmo para conjunto de hipóteses e teorias).
☆ Os cientistas são ativamente motivados por suas convicções e protegem suas hipóteses.
☆ A comunidade científica não é um todo coerente, há todo tipo de divergência e a maioria dos cientistas não se manifestam sobre temas polêmicos.
☆ A maior parte da comunidade científica sequer conhece o tema.
☆ Os que tomam algum conhecimento recebem uma versão enviesada através dos ativistas.
☆ A maioria esmagadora sequer leu qualquer obra dos nossos teóricos.
☆ O cancelamento de nossos eventos se deve a pressão de ativistas.
☆ As manifestações de instituições oficiais são também reação mecânica a pressão dos ativistas, não são baseadas em conhecimento sobre o assunto.

Por isso o significado do Design Inteligente hoje não é nem só a descrição mais econômica da natureza a ciência, mas o despertar do sono induzido pelos falsificadores da realidade.

Que a autodeterminação nos permita sempre despertar.


Junior D. Eskelsen
About Junior D. Eskelsen 91 Articles

Responsável pelo portal tdibrasil.org e pela página Teoria do Design Inteligente no Facebook. Colabora com as atividades do movimento do Design Inteligente no Brasil.

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