O Volume das Narrativas e a Realidade

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Dedicado a Janaína Marques, que me inspirou a deixar de “falar grego”, iniciar uma nova fase.

O que nós podemos ver?

Imagine que eu lhe diga: “entre no quarto e confira a cor de uma tesoura sobre uma mesa”. É bem provável que você volte sem ter reparado muito em outras coisas além da cor da tesoura. Os objetos que receberam o foco da sua atenção são os mesmos destacados no meu discurso sobre a sala que você desconhecia.

Provavelmente já aconteceu de você ouvir uma versão dos fatos, tomar partido, mas acabar mudando de lado ao ouvir a outra versão. Isso acontece porque as narrativas possuem pelo menos uma aparente coerência interna, mas a partir das contradições entre as duas uma será mais adequada aos fatos.

É muito fácil decidir entre pequenas narrativas, o problema surge nas grandes construções teóricas que explicam vários aspectos da realidade; porque o volume de narrativas impede qualquer outra interpretação alternativa possível dos dados, nos deixa cegos como em uma paixão.

O volume das narrativas passa a condicionar, conformar, destacar e suprimir os fatos e a própria interpretação dos fatos. A tendência é que a narrativa se reforce cada vez mais. Aí surge o fluxo incessante de confirmações das ideias, que sempre estão certas porque “tudo confirma elas”. Assim certas interpretações são favorecidas e é estabelecida uma visão de mundo.

Se você considera tudo isso determinante, é porque você não viu os outros aspectos e seus desdobramentos a partir do volume das narrativas: todas as inferências, as abordagens (perspectiva), os métodos, os problemas e até as perguntas (que direcionam o conhecimento) são condicionadas pelo peso das narrativas! Seja no senso comum, na prática profissional ou ainda mais na empresa científica.

As perguntas condicionam o escopo da busca pela verdade. Se eu questiono: “como produzir ouro a partir da combinação de metais comuns?” (alquimia), eu estou presumindo que isso seja possível. Assim a orientação, as expectativas e os resultados passam a ser condicionados pela própria narrativa. E é muito difícil despertar de um “sono” desses.

As narrativas sustentadas pelo senso comum não são mais fortes em resistência que as suportadas pela interpretação científica. Isso acontece porque imparcialidade presumida na atividade científica a torna supostamente superior em confiança, e é assim que quando ocorre uma “revolução científica” o impacto é maior, as mudanças são mais drásticas e as narrativas mudam abruptamente.

Por que não descrevemos facilmente as coisas como elas realmente são?

Ninguém pode sair fora de suas limitações, ver a realidade como ela é, comparar com todas as teorias e dizer qual delas “acertou mais”*. Toda nossa percepção da realidade está sujeita a interpretação. Ainda assim os dados e fatos são mais simples e fáceis de interpretar do que as construções teóricas.

Na maioria das vezes que todos dizem “os outros estão errados”, muito provavelmente todos estejam certos nisso, isso é, que todos estão errados de algum modo.

“Não existem algoritmos neutros para a escolha de uma teoria. Nenhum procedimento sistemático de decisão, mesmo quando aplicado adequadamente, deve necessariamente conduzir cada membro de um grupo a uma mesma decisão.”

Thomas Kuhn – A Estrutura das Revoluções Científicas


* Aplica-se aos métodos, inferências, abordagens e as combinações destes.


Junior D. Eskelsen
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Responsável pelo portal tdibrasil.org e pela página Teoria do Design Inteligente no Facebook. Colabora com as atividades do movimento do Design Inteligente no Brasil.

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