O Assédio à Liberdade Acadêmica em Manifesto

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Enézio Eugênio de Almeida Filho em evento na Universidade Presbiteriana Mackenzie

Em 2014 o Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente inaugurou a Sociedade Brasileira do Design Inteligente e manifestações contrarias foram publicadas a pedido da militância, não por qualquer conhecimento verdadeiro das instituições. Enézio esmaga o manifesto da Sociedade Brasileira de Paleontologia, mas demonstra ingenuidade sobre o estado da educação nacional ao pedir “o reforço do ensino da evolução biológica”.

O texto é um pouco longo, mas é uma viagem através da controvérsia.


A Sociedade Brasileira de Paleontologia é contra a liberdade acadêmica que questiona paradigmas colapsantes e considera novas teorias científicas

Por Enézio Eugênio de Almeida Filho

Esta é uma réplica ao manifesto publicado pela Sociedade Brasileira de Paleontologia sobre a validade da Evolução Biológica e seu ensino nas escolas do país, reagindo a declarações de grupos criacionistas e defensores do “Design Inteligente” acerca da Paleontologia, Evolução, origem do Universo e da Vida, que por não possuírem respaldo na comunidade acadêmica não devem ser consideradas científicas, pois são declarações comumente enganosas e prestam um desserviço à sociedade brasileira, que muitas vezes possui poucas ferramentas para identificar os equívocos veiculados.

Bem, com uma introdução dessas desqualificando os críticos e oponentes (quando sua maioria é composta de cientistas e pesquisadores) de paradigmas colapsantes sobre a origem e evolução do universo e da vida, e atribuindo a exclusividade do entendimento científico dessas questões à comunidade acadêmica, é bom trazer a lume, o posicionamento liberal de Darwin sobre como resolver questões científicas:

"... não se pode chegar a um resultado satisfatório a não ser pelo exame dos dois lados da questão e pela discussão dos fatos e dos argumentos", Charles Darwin, in Origem das Espécies, 1859.

Afirmar que a evolução é a teoria unificadora das ciências biológicas (o mantra de Theodosius Dobzhansky) é uma coisa, mas dizer que ela “explica de maneira ampla e suficiente, com base em incontáveis evidências, a realidade que observamos acerca dos seres vivos, suas origens, diversidade e formas, incluindo a espécie humana (Homo sapiens)” é outra história.

O mantra de Dobzhansky é controverso e bastante discutível, pois A. S. Wilkins, editor da publicação científica BioEssay, escreveu em editorial de 2000:

“Enquanto a grande maioria dos biólogos provavelmente concordaria com o ditado de Theodosius Dobzhansky de que 'nada em biologia faz sentido a não ser à luz da evolução', a maioria conduz seu trabalho bem feliz sem referência particular a ideias evolucionárias. ... A evolução pareceria ser a ideia unificadora indispensável e, ao mesmo tempo, uma ideia altamente supérflua.”

Dizer que a evolução é altamente supérflua difere muito de a evolução ser a teoria unificadora das ciências biológicas.

A segunda é bastante questionável, polêmica e controversa até mesmo na comunidade acadêmica. Uma leitura desapaixonada, mas objetiva da literatura especializada demonstra isso: a evolução é um fato aceito a priori, mas os cientistas não sabem como através de quais mecanismos se deu esse fato desde 1859!

Os signatários do manifesto reconhecem ser impossível replicar 3,5 bilhões de anos de história evolutiva em laboratório, e que por isso o status científico da Evolução Biológica é algumas vezes contestado; mas arrematam que tal questionamento é totalmente indevido, e ressalvam que uma hipótese só é considerada científica se for baseada em evidências observacionais, dados empíricos, e passar pelo crivo da comunidade acadêmica (não seria do contexto de justificação teórica, onde o que estabelece a robustez de uma teoria, são as evidências?).

Para demonstrar diversos aspectos do fato da evolução biológica que são rotineiramente verificados em laboratório, os signatários do manifesto mencionaram como “o exemplo mais notório a aquisição de resistência contra antibióticos em bactérias, um fenômeno importantíssimo para o entendimento e combate das infecções hospitalares”.

O exemplo de aquisição de resistência em bactérias contra antibióticos é notório ou tangencial na demonstração do fato da evolução? Razão? A teoria da evolução de Darwin sobre a origem não teleológica das estruturas e funções biológicas não exerce papel científico nenhum nas pesquisas médicas. A especialização necessária em microbiologia, biologia celular, biologia molecular, genética molecular, biologia de populações, farmacologia, patologia, etc., já faz parte da educação e pesquisa médica.

A única contribuição substancial feita pela biologia evolucionária foi destacar que as bactérias que não são eliminadas pelos antibióticos, não são eliminadas pelos antibióticos. Foi esse o único insight fornecido pela ‘seleção natural’ à resistência de antibióticos. Que tipo de evolução ocorreu aqui? Microevolução! Mas não é esse tipo de evolução que os signatários estão pugnando.

Para complicar mais ainda: as bactérias, muito antes da invenção dos antibióticos pelo homem 70 anos atrás, já tinham dado jeito de resistir a antibióticos naturais há pelo menos 30.000 anos:

“Análises metagenômicas de DNA antigo de sedimentos do Permafrost Beringiano, e a identificação da coleta altamente diversa de genes codificadores de resistência a ß-lactam, tetraciclina e antibióticos glicopeptídeos foram encontrados... Esses resultados demonstram conclusivamente que a resistência a antibióticos é um fenômeno natural que antecede o uso clínico moderno da pressão seletiva de antibiótico. Antibiotic resistance is ancient, Vanessa M. D’Costa et al, Nature 477, 457–461 (22 September 2011).

Quanto aos outros aspectos advindos de áreas distintas como a Genética, Microbiologia, Agronomia (aquisição de resistência de pragas da agricultura contra pesticidas) e Ecologia, será que bastam mesmo para estabelecer a história evolucionária dos organismos vivos que se modificam com o passar das gerações sob pressões naturais ou artificiais, e que compartilham ancestrais comuns? Mas é assim mesmo, ou é apenas retórica vazia?

A História da Ciência demonstra que as grandes descobertas biológicas do século 20 – a dupla hélice do DNA; a caracterização do ribossomo; o mapeamento dos genomas; pesquisas de reações a remédios e drogas; as melhoras na produção de alimentos e saneamento público; o desenvolvimento de novas cirurgias; e outras descobertas até em áreas que se espera a contribuição do paradigma darwinista, como o surgimento da resistência a antibióticos e pesticidas, ao contrário do afirmado pelo manifesto, a teoria da evolução de Darwin não forneceu nenhuma diretriz, mas foi trazida após as grandes descobertas, apenas como um verniz narrativo interessante.

Os signatários do manifesto aludiram as ciências históricas – uma hipótese é testada quanto à sua capacidade, em comparação a hipóteses alternativas, de explicar evidências recolhidas acerca de eventos pretéritos, pois a teoria da evolução de Darwin é uma teoria histórica de longo alcance. Destacaram que o estudo dos padrões evolutivos do passado não é menos científico que o de outras ciências históricas (e mesmo as ciências forenses). Ex.: não é necessário replicar a 2a Guerra Mundial para saber que ela ocorreu; aceitamos tal fato com base em evidências, como documentos, cartas, narrativas, fotografias e artefatos.

Este fato de a teoria da evolução de Darwin ser uma teoria histórica de longo alcance é quase que totalmente desconhecido dos evolucionistas. Muito mais desconhecido, até pelos signatários desse manifesto – é que a teoria do Design Inteligente também é uma teoria histórica metodologicamente equivalente ao neodarwinismo. Assim, quaisquer críticas à TDI é, por tabela, uma crítica à teoria da evolução de Darwin, bem como quaisquer manifestos contra a TDI, são manifestos contra a teoria da evolução de Darwin. Vide: The Scientific Status of Intelligent Design: The Methodological Equivalence of Naturalistic and Non-Naturalistic Origins Theories.

Eis que os signatários do manifesto, paleontólogos, não podiam deixar de fora a sua área científica para comprovar o fato da origem e evolução das espécies, e puxando um pouco a brasa para sua sardinha afirmaram que a Paleontologia “sempre forneceu algumas das mais importantes evidências da evolução” – a conexão de todos os seres vivos por ancestralidade comum, prevista por Darwin e que deveriam ser encontrados fósseis com características intermediárias entre duas espécies ou grupos. Tais fósseis transicionais foram encontrados – dinossauros com penas, aves com dentes, serpentes com patas, baleias terrestres, e uma série de hominídeos com diferentes capacidades cranianas/cognitivas e estágios de bipedalismo.

Será mesmo? Ou é mais retórica vazia do que ciência? Stephen Jay Gould, professor de Geologia e Paleontologia da Universidade Harvard, um evolucionista honesto, escreveu:

“A extrema raridade das formas transicionais no registro fóssil persiste como o negócio secreto da paleontologia. As árvores evolucionárias que adornam nossos livros texto têm dados somente nas pontas e nós de seus galhos… em qualquer outra área, uma espécie não surge gradualmente pelas transformações graduais de seus ancestrais; ela aparece de uma vez e plenamente formada.”

The Richness of Life: The Essential Stephen Jay Gould, 2006, W. W. Norton.

Apesar de por mais de 100 anos, antes dos mecanismos genéticos subjacentes serem conhecidos, e o registro da substituição das formas fósseis ao longo do tempo tenha sido o principal sustentáculo às ideias evolutivas, os signatários do manifesto estão em descompasso com a verdade das evidências científicas de fósseis intermediários:

“Nós ainda estamos no escuro sobre a origem da maioria dos principais grupos de organismos. Eles aparecem no registro fóssil como Atenas surgiu da cabeça de Zeus – plenamente formados e ansiosos em prosseguir, em contradição com a versão da evolução de Darwin como resultando de acumulação gradual de incontáveis variações infinitesimalmente pequenas.”

Jeffrey Schwartz, Sudden Origins: Fossils, Genes, and the Emergence of Species, p. 3 (Wiley, 1999).
“Muitas espécies permanecem virtualmente inalteradas por milhões de anos, depois desaparecem subitamente para serem substituídas por uma forma bem diferente, mas relacionada. Além disso, a maioria dos principais grupos de animais aparece abruptamente no registro fóssil, plenamente formados, e sem fósseis ainda descobertos que formem uma transição de seu grupo parental.”

C.P. Hickman, L.S. Roberts, and F.M. Hickman, Integrated Principles of Zoology, p. 866 (Times Mirror/Moseby College Publishing, 1988, 8th ed.

Sobre a evolução humana o conhecimento científico na paleoantropologia é polêmico, controverso e inconcluso. Traduzindo em miúdos: aquela ciência está mais para paleofantasia do que paleoantropologia!

Quanto aos modelos adotados pela geologia mundial pressupondo que a Terra possui uma idade de bilhões de anos, que os processos de formação e compleição do relevo e dos solos, bem como a tectônica de placas que molda os contornos dos continentes, ocorrem muito lentamente, o movimento do Design Inteligente não aborda e nem questiona essas questões. Muito menos os métodos de datação de rochas e fósseis, com a idades aproximadas à da Terra (cerca de 4,5 bilhões de anos). Um detalhe que comprova que os signatários desse manifesto nada leram dos livros e artigos escritos pelos teóricos e proponentes da TDI.

Mais uma vez os signatários do manifesto estão em descompasso com a verdade das pesquisas científicas sobre o registro ser “naturalmente incompleto devido à dificuldade de se formar um fóssil”. E devem ter faltado à aula de Lógica 101, pois se menos de 1% dos seres vivos se fossilizaram, e que menos de 1% desses seres vivos são de conhecimento dos paleontólogos como que esse 1% de 1% de fósseis encontradas apoiam a hipótese de ancestralidade comum? O que era uma forte evidência a favor da evolução – o registro fóssil – tornou-se agora um fato científico circunstancial e frágil no contexto de justificação teórica?

A analogia sobre analisar o registro fóssil e olhar fotografias de quando éramos mais jovens: cada foto sendo um momento estanque e apenas o conjunto delas indica padrões de mudança através do tempo, que a ausência de fotos dos primeiros anos da vida de alguém não nos levaria a crer que a pessoa surgiu “do nada” ou que já nasceu mais velha, mas sim que não foram tiradas fotografias, ou que essas foram perdidas, e dizer que isso é o mesmo que se dá com os períodos da história geológica da vida, nenhum dos quais está registrado como se gostaria com base em fósseis, não fortalece, antes, enfraquece a posição da robustez da evolução no contexto de justificação teórica: não existem os fósseis transicionais necessários confirmando a hipótese de ancestralidade comum com modificação.

Não é uma leitura equivocada da “Explosão do Cambriano” (o surgimento no registro fóssil, há aproximadamente 520 milhões de anos, de uma vasta diversidade de formas antes não conhecidas na coluna geológica) de ser uma evidência, entre muitas, contrária à ideia de evolução, pois isso era de fato o esperado no registro fóssil.

Em um livro-texto de ensino superior, lemos:

“A maioria dos filos de animais que estão representados no registro fóssil primeiro aparecem, ‘plenamente formados’ e identificáveis quanto ao seu filo, no Cambriano há uns 550 milhões de anos atrás... O registro fóssil, portanto, não ajuda nada no que diz respeito a entender a origem e diversificação inicial dos vários filos de animais.”

R.S.K. Barnes, P. Calow and P.J.W. Olive, The Invertebrates: A New Synthesis, pp. 9-10 (3rd ed., Blackwell Sci. Publications, 2001).

E um artigo sobre como se sentem os darwinistas em termos científicos e emocionais com a ausência desses elos transicionais:

“Desde o tempo de Darwin tem existido um vazio perturbador, tanto paleontológico como psicológico, na base da era Fanerozóica. Se a sua teoria da evolução gradualista for verdadeira, certamente os oceanos pré-fanerozóicos devem ter inundado animais vivos - apesar da ausência conspícua dos primeiros registros fósseis.”

N. J. Butterfield, “Terminal Developments in Ediacaran Embryology”, Science, Vol. 334:1655-1656 (December 23, 2011).

O argumento da Explosão Cambriana contra o fato da evolução não ignora, pelo contrário, afirma que as formas de vida pré-cambrianas eram em sua maioria desprovidas de partes mineralizadas como ossos e conchas, mas isso não dificulta sua preservação em rochas:

Exceptional Fossil Preservation and the Cambrian Explosion

Nicholas J. Butterfield

Integr. Comp. Biol. (2003) 43 (1): 166-177.

Os signatários do manifesto mencionaram e descreveram, de modo ideal e asséptico, a “revisão por pares” como sendo o princípio sustentador e determinante da atual ciência profissional: “antes de serem publicadas em uma revista reconhecida, as contribuições científicas devem ser revisadas por pesquisadores habilitados a julgá-las” e isso é que determina a sua publicação ou não. Um controle de qualidade ISO científico.

Após a primeira etapa escrutinadora, é que as contribuições científicas publicadas, passam pelo segundo e mais importante teste de qualidade: a comunidade acadêmica irá ler, comentar, aceitar ou rejeitar as propostas apresentadas. Revisores e demais pesquisadores se baseiam em critérios objetivos no processo de avaliação dos trabalhos, que devem ser fundamentados em evidências concretas e hipóteses testáveis.

Fica meio complicado para a ciência profissional usar esses critérios rigorosos em algumas hipóteses científicas – massa escura, buracos negros, multiversos, ancestral comum, que apesar de evidências, algumas fortes e outras circunstanciais, não podem ser testadas.

Muito mais complicado fica a “revisão por pares” como o princípio sustentador e determinante da atual ciência profissional quando a História da Ciência registra que algumas grandes descobertas científicas não passaram por este crivo: De Revolutionibus, de Copérnico, Principia de Newton, o artigo original de Einstein sobre a relatividade que, mesmo tendo sido publicado no Annalen der Physik, não passou pela revisão por pares. Muito menos a teoria da evolução de Darwin no Origem das Espécies…

Se, como afirmam os signatários do manifesto, “apenas as ideias mais robustas, testadas continuamente pela comunidade científica, serão introduzidas em livros didáticos e ensinadas nas escolas”, como explicar o uso de algumas evidências científicas distorcidas e o uso de fraudes centenária e recente para “provar” o fato da evolução nos livros-texto de Biologia do ensino médio aprovados por especialistas do MEC/SEMTEC/PNLEM, quando o “lapso” desses revisores por pares foi levado ao conhecimento do MEC em documento protocolado em 2005 e nada foi feito?

Muito mais sérias são as críticas atuais feitas ao status quo do processo de “revisão por pares”: (1) o sistema rejeita, erradamente, artigos e pesquisas científicas válidas, e (2) o sistema aceita, erradamente, artigos e pesquisas científicas falhas e fraudulentas. Um sistema de guarda-cancelas não tão cientificamente eficiente quanto retratado pelos signatários do manifesto.

A revisão por pares em si, não é garantia de aumentar a qualidade dos artigos publicados. Vide: Martin Enserink, “Peer Review and Quality: A Dubious Connection?,” Science, Vol. 293:2187-2188 (September 21, 2001).

Os historiadores de ciência entendem perfeitamente bem porque os pontos de vista científicos minoritários têm dificuldades de serem publicados em publicações científicas com revisão por pares. Razão? Os cientistas podem estar inclinados em rejeitar ideias novas:

“Algumas vezes os cientistas encontram forte resistência de pares às suas novas ideias. Frequentemente a comunidade científica acha difícil aceitar novas ideias ou métodos e observações inesperadas. A média e fonte mais danosa de resistência dos cientistas a descobertas científicas vem exatamente daqueles pares cuja missão é preservar a qualidade do trabalho científico: Os editores e os revisores de publicações científicas”.

Juan Miguel Campanerio, "Have Referees Rejected Some of the Most-Cited Articles of All Times?," Journal of the American Society for Information Science, Vol. 47(4):302-310 (1996).

Os teóricos e proponentes do “Design Inteligente” são perseguidos, alguns até com suas carreiras acadêmicas destruídas, tudo documentado em processos de justiça, por defenderem a ideia de existir sinais de inteligência na natureza empiricamente detectáveis. Nossos artigos são rejeitados e não divulgados em revistas científicas por estarem fora do paradigma científico vigente. A frase “É fato que mudanças de paradigma sofrem resistência até serem aceitas ou rejeitadas” parece insinuar que os signatários entendem que o que ocorre com as proposições do Design Inteligente é um sinal de mudança paradigmática. Nós esperamos por isso desde os anos 1990s…

Verdade que nesse embate epistêmico, tanto o novo quanto o velho paradigma são respaldados por evidências testáveis. Nada mais falso da parte dos signatários, dizer que as premissas básicas do DI não seguem os métodos de teste e refutação de hipóteses, simplesmente sustentando, sem dados empíricos, a necessidade de uma causa externa consciente na estruturação do universo e da vida.

Consideremos, cum grano salis, o que é teoria científica e depois vejamos como a TDI opera dentro do método científico. Peter Kosso, filósofo da ciência, explica que nomear algo de “teoria” diz pouco sobre o grau de certeza apoiando a ideia. Como ele afirma, “nem ‘teórico’ nem ‘lei’ diz respeito a ser verdadeiro ou falso, ou sobre ser bem testado ou especulativo.” Na visão de Kosso, uma teoria científica “descreve aspectos da natureza que estão além (ou subjacente) do que nós podemos observar, aspectos que podem ser usados para explicar o que nós observamos”. Assim “algumas teorias são verdadeiras (teoria atômica), algumas são falsas (teoria calórica), e o método científico é que nos guia para decidir quais são o que”.

A TDI satisfaz esta definição de teoria? Sim, satisfaz, pois a TDI é uma teoria de detecção de design, e propõe a agência inteligente como um mecanismo que causa a mudança biológica. A TDI permite que nós expliquemos como surgiram os aspectos observados de complexidade biológica, e outras complexidades naturais, e utiliza o método científico para fazer suas afirmações.

O método científico é geralmente descrito como um processo de quatro etapas envolvendo observações, hipóteses, experimentos, e conclusão. A TDI começa com a observação de que agentes inteligentes produzem informação complexa e especificada (ICE). Os teóricos do DI fazem a hipótese de que se um objeto natural for intencionalmente planejado, ele conterá altos níveis de ICE. Os cientistas então realizam testes experimentais sobre os objetos naturais para determinar se eles contêm informação complexa e especificada. Uma forma facilmente testável de ICE é a complexidade irredutível de sistemas biológicos, que pode ser testada pela engenharia reversa de estruturas biológicas através de experimentos de silenciamento para determinar se elas exigem todas as suas partes para funcionar. Quando os cientistas experimentalmente descobrem complexidade irredutível em uma estrutura biológica, eles concluem que ela foi intencionalmente planejada.

Além da definição do que é teoria de Kosso, a TDI também satisfaz a definição de teoria científica da National Academy of Sciences dos Estados Unidos:

Elemento 1: A TDI deve ser “uma explicação de algum aspecto do mundo natural” e uma “explicação detalhada de algum aspecto da natureza”.

A TDi não é somente uma explicação de “algum aspecto do mundo natural”, na verdade ela explica muitos aspectos do mundo natural. Se nós pensarmos em termos de categorias amplas, a TDI propõe que agência inteligente é a a explicação mais provável para eventos históricos tais como:

A origem do ajuste fino do cosmos para a vida avançada.

A origem de níveis extremamente altos de informação complexa e especificada no DNA.

A origem de sistemas integrados exigidos para os planos corporais dos animais.

A origem de muitos sistemas de complexidade irredutível encontrados nos organismos vivos.

Elemento 2: A TDI deve “incorporar muitos fatos, leis e hipóteses testadas”.

A TDI incorpora muitos fatos, leis e hipóteses testadas, incluindo:

A TDI incorpora as leis e constantes conhecidas do universo e as incorpora numa teoria unificada para explicar porque elas são coordenadas para produzir os parâmetros físicos que produzem a vida.

A TDI incorpora muitos fatos conhecidos sobre as sequências do DNA, bem como hipóteses testadas demonstrando que elas são ajustadas finamente para realizar funções biológicas.

A TDI incorpora uma miríade de hipóteses testadas sobre o surgimento geologicamente abrupto de planos corporais no registro fóssil, bem como diversos fatos da bioquímica e biologia animal no que diz respeito ao tipo e à quantidade de informação integrada necessárias para coordenar novos tipos proteínas, tipos de células, tecidos, e órgãos em outros planos corporais funcionais.

A TDI incorpora muitas hipóteses testadas sobre a presença de complexidade irredutível em sistemas biológicos, evidenciados por experimentos de silenciamento genético que têm demonstrado que a complexidade irredutível é um fenômeno real.

A TDI faz tudo isso ao propor novas leis tais como a lei da conservação da informação, novos princípios sobre as causas de alta informação complexa e especificada, novos métodos para medir a informação funcional e complexidade, e novas hipóteses sobre a ubiquidade do ajuste fino por toda a cosmologia e biologia.

Elemento 3: A TDI deve ser “bem substanciada” e “apoiada por um vasto conjunto de provas”.

A TDI é bem substanciada porque um número significativo de pesquisas tem confirmado as predições da TDI, tais como:

Pesquisas em física e cosmologia continuam a descobrir mais e mais níveis profundos de ajuste fino. Muitos exemplos poderiam ser dados, mas este aqui é surpreendente: a entropia inicial do universo deve ter sido finamente ajustada em 1 parte em 10(10^123) para fazer com que o universo fosse favorável ‘a vida como conhecemos.

Testes de sensibilidade mutacional mostram cada vez mais que as sequências do DNA são altamente e finamente ajustadas para produzir proteínas funcionais e realizar outras funções biológicas.

Pesquisas de epigenética e biologia de sistemas estão cada vez mais revelando como quão integrados são os organismos, da bioquímica à macrobiologia, e mostrando funções celulares comuns mas finamente ajustadas.

Experimentos de silenciamento genético estão demonstrando a complexidade irredutível, como a do flagelo bacteriano, ou as características multimutacionais onde muitas mutações simultâneas seriam necessárias para se ganhar uma vantagem biológica.

Sem dúvida que a ciência não conhece e nem conhecerá todos os processos e fenômenos da natureza. Agora, os signatários do manifesto se mostram totalmente ignorantes da TDI quando atribui aos seus teóricos e proponentes a evocação de causas metafísicas para aplacar nossa ignorância. Não fomentamos uma suposta corroboração e sim o teste, não de nossas crenças, mas de proposições científicas de complexidade irredutível de sistemas biológicos e informação complexa especificada que, e aí os signatários do manifesto não mencionam, mas desde os anos 1990s, a comunidade científica vem tentando falsificar nossas hipóteses, mas não conseguiram. O flagelo de uma “simples” bactéria incomoda a comunidade científica.

Os signatários do manifesto são encontrados em descompasso com a verdade sobre o Design Inteligente ser pseudociência e que isso explica porque seus defensores não têm artigos publicados em revistas reconhecidas pela comunidade acadêmica. Nada mais falso. Temos artigos publicados em revistas científicas reconhecidas e com revisão por pares:

Journal of Molecular Biology, Protein Science, The Quarterly Review of Biology, Theoretical Biology and Medical Modelling, Journal of Advanced Computational Intelligence and Intelligent Informatics, Physics of Life Reviews, Cell Biology International, BIO-Complexity, Rivista di Biologia/Biology Forum, Proceedings of the Biological Society of Washington, and Annual Review of Genetics, entre outras.

Pelo replicado acima, fica claro que existem outras razões, não científicas, mas ideológicas, não querendo que o Design Inteligente seja debatido e considerado na Academia, e talvez ensinado nas escolas. Não é falso o fato de que seus defensores são impedidos de publicar devido a conflito de interesses. Há vários exemplos disso que resultaram em processos judiciais.

É falsa a afirmação de que baseado no corpo de conhecimentos científicos atuais, não existam questionamentos razoáveis à Teoria da Evolução. Existem, e de várias áreas científicas demandando uma revisão profunda ou o simples descarte da atual teoria da evolução. Tanto é verdade isso, que uma nova teoria geral da evolução está sendo engendrada pela comunidade científica após o encontro dos 16 de Altenberg, Áustria, propondo a Síntese Evolutiva Ampliada/Estendida. Esta nova teoria da evolução somente será anunciada em 2020.

A ciência abomina o vácuo epistemológico. Os signatários do manifesto sabem dizer sob qual referencial teórico estão sendo feitas pesquisas em biologia evolucionária?

Os signatários do manifesto demonizam os criacionistas e proponentes do Design Inteligente afirmando que eles vendem a ideia equivocada (?) de que a Evolução é uma teoria prestes a cair e sem sustentação no meio acadêmico, e que para isso, citam pouquíssimos pesquisadores na tentativa de demonstrar dissidência intelectual. Não são pouquíssimos os dissidentes de Darwin, são quase 1.000 no mundo inteiro, e cientistas membros de Academias de Ciência.

Querer alijar alguns desses dissidentes por sua posição pessoal não atuarem na área das Ciências Biológicas, é dar um tiro no pé de Darwin, que não era biólogo, e tinha como formação acadêmica apenas um mestrado em teologia. Ele ia ser pastor anglicano…

Somos convictos da teoria que defendemos, submetemos sim nossas propostas e posicionamentos à publicação em revistas científicas para o escrutínio de pares, mas os guarda-cancelas não permitem sua publicação. Realmente, convicções pessoais não possuem lugar na ciência. Quanto a reclamar da realização de um congresso, é compreensível, o nome disso é jus sperniandi. Não estamos com isso dizendo ser evidência da validade científica de nossa teoria.

Sem dúvida que a descoberta de novos fósseis leva a comunidade paleontológica a remodelar seu entendimento da história da vida na Terra, adequando-o às novas evidências. Porém, é falsa a afirmação de que “até hoje, nenhuma dessas evidências ofereceu contraponto ou refutou a ideia de que todos os seres vivos do planeta compartilham ancestrais comuns, que tiveram descendentes que se modificaram ao longo do tempo, originando toda a biodiversidade atual (que continua a evoluir)”. Pelo contrário, a descontinuidade é tema recorrente nesses achados implica cada vez mais no questionamento do processo evolutivo. A Árvore da Vida de Darwin é uma ilusão…

Em flagrante descompasso com a verdade das evidências, a Sociedade Brasileira de Paleontologia reforçou que os dados paleontológicos e em Genética, Bioquímica, Geologia, Ecologia, Biogeografia e Sistemática respaldam enfaticamente a realidade da Evolução Biológica, quando é justamente nessas áreas que a Evolução está sendo questionada na sua robustez epistêmica para explicar cientificamente a origem e a evolução da diversidade e complexidades de todos os seres vivos na Terra.

Concluímos a nossa réplica ao manifesto da SBP, pedindo que seja fortalecido o ensino de Evolução nas escolas públicas e privadas de modo objetivo e honesto, apresentando aos alunos as evidências e favor e contra o fato da evolução, pois a ciência avança assim com a consideração de pontos divergentes. A atual formação científica de nossos alunos está mais para doutrinação do que educação, e flagrante prejuízo da cidadania desses estudantes que não ficam sabendo que a teoria da evolução entrou em colapso há várias décadas. Qualquer tentativa de não apresentar em aulas de ciências essas dificuldades fundamentais para a corroboração da Evolução no contexto de justificação teórica, representa uma violência de agendas não científicas e um desserviço à sociedade brasileira.

O manifesto da Sociedade Brasileira de Paleontologia parece ter sido feito na Wikipédia, total foi o desconhecimento sobre a teoria do Design Inteligente. Isso depõe contra a integridade de uma organização científica que se apresentou à sociedade como guardiã da ciência, mas se mostrou motivada por uma agenda ideológica do que científica ao apresentar seu manifesto.

Campinas, 6 de novembro de 2014

Enézio E. de Almeida Filho

Coordenador do ainda Núcleo Brasileiro de Design Inteligente

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LISTA DE SIGNATÁRIOS DO MANIFESTO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PALEONTOLOGIA – Gestão 2013-2015 *

Presidente: Dr. Max Cardoso Langer (USP/ Ribeirão Preto)

Vice-Presidente: Dr. Átila Augusto Stock da Rosa (UFSM)

1º Secretário: Dr. Renato Pirani Guilardi (UNESP)

2ª Secretária: Dra. Mírian L. A. Forancelli Pacheco (UFSCar/Sorocaba)

1ª Tesoureira: Dra. Annie Schmaltz Hsiou (USP/Ribeirão Preto)

2º Tesoureiro: Dr. Rodrigo Miloni Santucci (UnB/Planaltina)

Diretor de Publicações: Dr. Juan Carlos Cisneros (UFPI)

* a elaboração deste texto contou com o auxilio de Paulo M. Nascimento, Fabio Machado, Pedro L. Godoy, Gabriel S. Ferreira, Felipe C. Montefeltro e Charles M. Santos.


Junior D. Eskelsen
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Responsável pelo portal tdibrasil.org e pela página Teoria do Design Inteligente no Facebook. Colabora com as atividades do movimento do Design Inteligente no Brasil.

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